O Amor entre o Rio e a Rocha: A "Alma Dividida" na Modernidade
O amor e a sexualidade no Ocidente moderno são o campo de batalha definitivo entre a mudança de Heráclito, a permanência de Parmênides e a busca pela unidade de Aristóteles. Quando um indivíduo vive uma inclinação que não pode ser revelada, essa batalha deixa de ser teórica e torna-se um martírio existencial.
O Fluxo de Heráclito: O Desejo como Fogo e Rio
Para Heráclito, o mundo é um fogo que se acende e apaga conforme a medida, e "tudo flui".
A sexualidade e o amor são forças heraclitianas — vivas, pulsantes e em constante movimento. Tentar estancar esse fluxo é como tentar represar um rio com as mãos nuas.
Quando a sociedade ou a própria pessoa tenta abafar sua inclinação real, cria-se uma tensão insuportável. Heráclito dizia que a harmonia nasce dos opostos, mas quando o fluxo interno é amordaçado, a única coisa que resta é uma "guerra" que consome o sujeito por dentro.
A Rocha de Parmênides: O "Ser" como Máscara e Prisão
Parmênides afirmava que o Ser é imóvel, eterno e imutável. No campo social, isso se traduz na imposição de identidades fixas e padrões tradicionais.
Muitas vezes, para sermos aceitos, somos forçados a construir um "Ser" parmenidiano — uma identidade estática, heteronormativa e socialmente aceitável — que funciona como uma esfera perfeita por fora, mas oca por dentro.
Aquele que esconde sua real inclinação vive a tragédia de sustentar um "Ser" que é uma mentira, enquanto seu verdadeiro "Eu" é relegado ao "Não-Ser" (o que não pode ser dito, nem visto). É o esforço exaustivo de ser pedra quando se nasceu rio.
A "Alma Dividida" de Aristóteles: O Preço da Inautenticidade
Aristóteles definiu a amizade e o amor elevado como "uma alma habitando dois corpos". Mas como pode haver união real se um dos corpos habita uma mentira?
Sem a liberdade de vivenciar a própria inclinação, a pessoa torna-se uma alma dividida consigo mesma. Não há o florescimento (Eudaimonia), pois a virtude aristotélica exige a verdade e a ação de acordo com a própria natureza.
Aristóteles ensinava que somos o que fazemos repetidamente. Se alguém passa a vida agindo contra seu desejo real para manter o "personagem" aceito pela família ou sociedade, ela deforma sua própria essência. A alma, em vez de habitar o outro, perde a habitação de si mesma.
Uma grande dificuldade da vida moderna é conciliar a segurança e o pertencimento de Parmênides com a liberdade e o fluxo de Heráclito. O indivíduo que silencia sua sexualidade está sacrificando seu "Devir" (sua capacidade de mudar e crescer na própria verdade) para garantir um "Ser" (uma imagem estável) que satisfaça o olhar alheio.
A verdadeira "alma em dois corpos" só é possível quando cada corpo é habitado por uma alma que não tem medo de ser rio. Caso contrário, o relacionamento não passa de um encontro entre duas máscaras de mármore, enquanto a vida real corre, invisível e triste, por baixo da terra.
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