O Fogo da Verdade e a Falsa Paz do Poder. Meditação Filosófica de um momento urgente.
“Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! […] Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão.” (Lucas 12, 49-51) À primeira vista, o trecho da Proclamação do Evangelho segundo Lucas causa o que os gregos antigos chamavam de aporia: um perplexo nó do pensamento. Como aquele apelado como o "Príncipe da Paz" reivindica, em tom quase veemente, a função de semear o fogo e a dissensão? Para desatar essa aparente contradição, vale recorrer à distinção feita por Baruch Spinoza em seu Tratado Político: a paz verdadeira não é a mera ausência de guerra ou a submissão cega; ela é uma virtude que nasce da força de espírito (fortitudo). A concordância forjada pelo silêncio dos oprimidos ou pela desinformação das massas não é paz — é assujeitamento. Quando Cristo fala do fogo, ele evoca a imagem do fogo da purificação ética. O fogo que consome as aparências, rasga o véu da hipocrisia e revela o que há ...