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O Amor entre o Rio e a Rocha: A "Alma Dividida" na Modernidade

O amor e a sexualidade no Ocidente moderno são o campo de batalha definitivo entre a mudança de Heráclito, a permanência de Parmênides e a busca pela unidade de Aristóteles. Quando um indivíduo vive uma inclinação que não pode ser revelada, essa batalha deixa de ser teórica e torna-se um martírio existencial. O Fluxo de Heráclito: O Desejo como Fogo e Rio Para Heráclito, o mundo é um fogo que se acende e apaga conforme a medida, e "tudo flui". A sexualidade e o amor são forças heraclitianas — vivas, pulsantes e em constante movimento. Tentar estancar esse fluxo é como tentar represar um rio com as mãos nuas. Quando a sociedade ou a própria pessoa tenta abafar sua inclinação real, cria-se uma tensão insuportável. Heráclito dizia que a harmonia nasce dos opostos, mas quando o fluxo interno é amordaçado, a única coisa que resta é uma "guerra" que consome o sujeito por dentro. A Rocha de Parmênides: O "Ser" como Máscara e Prisão Parmênides afirmava que o Ser é...

Aula 02: Heráclito vs. Parmênides – O Conflito entre o Fluxo e a Permanência.

 Bem-vindo à Aula 02. Agora que entendemos como o pensamento racional ( Logos ) nasceu e como ele se aplica aos nossos afetos, vamos ao "embate dos gigantes". Esta aula é fundamental porque tudo o que veio depois na filosofia — de Platão à física quântica — é uma tentativa de responder a estes dois homens. Imagine que você está diante de uma fogueira. O que você vê? Chamas que mudam de forma a cada milésimo de segundo. Se você piscar, a chama já não é a mesma. No entanto, você diz: "A fogueira está ali". Essa é a contradição da realidade: As coisas mudam ou elas permanecem? 1. Heráclito de Éfeso : O Filósofo do "Devir" (Mudança) Heráclito (c. 535 – 475 a.C.) é conhecido como "o Obscuro". Para ele, a essência do mundo é o movimento.    Panta Rhei : "Tudo flui". O universo é como um rio. A estabilidade é uma ilusão dos nossos sentidos lentos.    A Unidade dos Opostos : A realidade é mantida pela tensão. O dia só existe porque existe a n...

Amizade. O Paradoxo da Perto-Distância: Uma Tensão entre o Fluxo, a Essência e a Alma Dividida

A amizade na era digital é o campo de batalha perfeito para as ideias de Heráclito e Parmênides , mediadas pela ética clássica. Entender por que os laços modernos parecem tão líquidos e, ao mesmo tempo, tão carentes de solidez, exige olhar para o que permanece e o que se transforma. Para Heráclito, a única constante é a mudança. "Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio", pois as águas não são as mesmas e você já não é o mesmo homem. Na vida moderna, a amizade tornou-se puramente heraclitiana. Nossos vínculos estão no fluxo ( Devir ) perpétuo dos algoritmos . A Efemeridade: Amizades que nascem em um grupo de WhatsApp , brilham intensamente por uma semana e morrem no silêncio do "visto por último". Tudo flui, nada permanece. O Conflito como Motor: Heráclito acreditava que a luta ( Pólemos ) é a mãe de todas as coisas. Hoje, ao "bloquear" o diferente, interrompemos o fluxo da vida e criamos uma estagnação que mata o aprendizado. Já Parmênides afirmava o o...

Aula 01: Dos Mitos ao Logos

O Nascimento do Pensamento Racional ​Imagine um mundo onde não existissem a meteorologia , a biologia ou a física . Se um raio caísse, era a fúria de Zeus. Se o mar ficasse revolto, era o temperamento de Poseidon . Isso é o Mito: uma narrativa sagrada que explica a realidade através de forças sobrenaturais e vontades divinas. ​Por volta do século VI a.C., na Grécia, surge o Logos. Essa palavra significa "razão", "discurso" ou "estudo". Os primeiros filósofos (os pré-socráticos ) começaram a perguntar: "E se o raio não for um deus, mas apenas o resultado de leis naturais?". ​A transição do Mito ao Logos não foi apenas trocar uma história por outra, mas mudar a forma de validar a verdade. No Mito, a verdade vem da autoridade (o poeta, o oráculo). No Logos, a verdade vem da demonstração e do debate.1. O Cenário: Por que na Grécia e por que naquela época? Antes dos gregos, civilizações como a Egípcia e a Babilônica já possuíam conhecimentos avanç...

O Chamado à Existência Autêntica. Meditação Filosófica/Teológica de Marcos 1,14-20

 Esta é uma passagem fundamental do Evangelho de Marcos (1,14-20) que marca o início do ministério público de Jesus. Para uma apresentação de caráter católico-filosófico, podemos analisar este texto sob a ótica da Fenomenologia , do Existencialismo Cristão e da Metafísica da Vontade . O texto inicia com a proclamação: "O tempo já se completou". Na filosofia grega, distinguimos o Chronos (o tempo sequencial, quantitativo) do Kairós (o momento oportuno, qualitativo). Sob a ótica da Teologia da História , a vinda de Cristo transmuta o tempo. Aqui, o "tempo cumprido" não é apenas o fim de uma contagem regressiva, mas a irrupção do Eterno no temporal. De uma perspectiva fenomenológica, a presença de Jesus altera a percepção da realidade dos pescadores: o mundo não é mais um ciclo repetitivo de lançar redes, mas um horizonte de significados novos que se abre. O imperativo " Convertei-vos " (em grego, Metanoia ) vai além do arrependimento moral. Filosoficament...

O Encontro do Ser com a Misericórdia. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 5,12-16

O texto de Lucas 5,12-16 apresenta não apenas um milagre taumatúrgico , mas um profundo diálogo entre a transcendência divina e a contingência humana . A narrativa do homem " cheio de lepra " que se prostra diante de Jesus evoca questões fundamentais sobre a alteridade, a ética do cuidado e a metafísica da cura . Sob a ótica da fenomenologia, a lepra não é apenas uma patologia biológica, mas uma " morte social ". O leproso é aquele cujo "rosto" foi apagado pela desfiguração. Ao dizer "Senhor, se queres, tens o poder de me purificar", o homem reconhece em Jesus a Alteridade Absoluta . Filosoficamente, o leproso rompe o isolamento do "eu" para buscar o "Tu" divino. A resposta de Jesus — o toque — é um ato revolucionário: Ele não apenas cura, mas restabelece o vínculo ontológico do homem com o mundo. O toque de Cristo subverte a lógica da impureza legalista, afirmando que a dignidade da pessoa humana precede qualquer norma ritu...

O Milagre da Partilha: Uma Ontologia da Abundância. Meditação Filosófica/Teológica deeditacao Marcos 6,34-44

 Esta análise para apresentação aborda o milagre da multiplicação dos pães em Marcos 6,34-44 , transpondo a narrativa bíblica para o campo da filosofia clássica , da fenomenologia e da doutrina social católica . O relato da multiplicação dos pães por Jesus não deve ser compreendido apenas como um prodígio taumatúrgico , mas como uma lição sobre a antropologia do cuidado e a superação da lógica da escassez . O texto inicia com Jesus vendo a multidão e sentindo compaixão, pois eram como " ovelhas sem pastor ".  Aqui opera a Fenomenologia da Alteridade (inspirada por Emmanuel Levinas ). O " rosto " do outro, em sua vulnerabilidade e fome, impõe um mandamento ético que precede qualquer teoria. A compaixão de Jesus não é um sentimento vago, mas uma forma de conhecimento profundo da realidade — uma aisthesis (percepção) que reconhece a dignidade intrínseca da pessoa humana . Na tradição tomista , a misericórdia é vista como uma virtude que busca remediar a miséria al...