O Labirinto do Outro: Correção, Palavra e Presença. Reflexão Filosófica/Teológica de Mateus 18,15-20
Dostoiévski escreveu em Os Irmãos Karamazov que o inferno é a incapacidade de amar. Mas a vida comunitária nos revela uma nuance talvez mais cotidiana e incômoda: o inferno, muitas vezes, é a incapacidade de conversar. Quando o texto do Evangelho de Mateus nos apresenta um roteiro para a reconciliação — o irmão que peca, a conversa a sós, as testemunhas, a comunidade —, ele não está apenas redigindo um regulamento jurídico para a Igreja nascente. Está nos entregando uma autópsia da fragilidade humana e um remédio contra o nosso narcisismo. O ato de ir até o outro "em particular, a sós contigo" é de uma exigência descomunal. A reação instintiva da psique ferida é o ressentimento ou a exposição pública. A raiva nos impele a buscar aliados imediatos, espalhando a falta do outro como quem busca validação para a própria dor. Ao prescrever o diálogo a sós, Jesus força a quebra do mecanismo do tribunal do júri imaginário. Exige o confronto direto com a alteridade. Olhar no olho daqu...