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A Máscara da Palavra e a Verdade do Desejo: O Sofismo do Eu

Na Grécia de Protágoras, a palavra era uma ferramenta de poder. Hoje, na modernidade ocidental, a nossa "retórica" é o nosso perfil social, a nossa postura profissional e a forma como narramos nossa própria vida para os outros. 1. A Retórica da Normalidade Muitas vezes, aquele que vive uma inclinação reprimida torna-se o sofista de si mesmo. Ele desenvolve uma oratória impecável, uma linguagem corporal estudada e argumentos sólidos para provar ao mundo que ele se encaixa no padrão parmenidiano (a estabilidade do "Ser" esperado).  O convencimento como sobrevivência: Aqui, a retórica não é usada para ganhar um debate na Ágora, mas para ganhar o direito de pertencer à família ou ao grupo social. A pessoa convence os outros de que é "normal" (dentro do conceito sofista de que a normalidade é apenas uma convenção social). 2. O Relativismo Ético e a Sexualidade Para os sofistas, a moral era uma questão de Nomos (lei/convenção), não de Physis (natureza).  Se a so...

Aula 03: Os Sofistas – A Retórica e a Verdade Relativa

No século V a.C., Atenas vivia o auge da democracia. Para ter sucesso na política, não bastava ser "nobre"; era preciso saber convencer a assembleia. Surgem então os Sofistas : professores itinerantes que cobravam caro para ensinar a arte da persuasão. 1. Protágoras e o Relativismo A frase mais famosa de Protágoras é: " O homem é a medida de todas as coisas ".  O que isso significa? Não existe uma "Verdade" única e absoluta (como Parmênides queria). A verdade depende de quem observa. Se para você o vento está frio e para mim está quente, o vento é frio e quente ao mesmo tempo.   Consequência: Se a verdade é relativa, o que importa não é achar a "Realidade", mas sim construir o argumento mais forte. 2. Górgias e o Niilismo da Linguagem Górgias levava o ceticismo ao extremo. Ele dizia: Nada existe. Se existisse, não poderíamos conhecer. Se pudéssemos conhecer, não poderíamos comunicar.   Para ele, a palavra não serve para revelar a verdade, mas p...

O Amor entre o Rio e a Rocha: A "Alma Dividida" na Modernidade

O amor e a sexualidade no Ocidente moderno são o campo de batalha definitivo entre a mudança de Heráclito, a permanência de Parmênides e a busca pela unidade de Aristóteles. Quando um indivíduo vive uma inclinação que não pode ser revelada, essa batalha deixa de ser teórica e torna-se um martírio existencial. O Fluxo de Heráclito: O Desejo como Fogo e Rio Para Heráclito, o mundo é um fogo que se acende e apaga conforme a medida, e "tudo flui". A sexualidade e o amor são forças heraclitianas — vivas, pulsantes e em constante movimento. Tentar estancar esse fluxo é como tentar represar um rio com as mãos nuas. Quando a sociedade ou a própria pessoa tenta abafar sua inclinação real, cria-se uma tensão insuportável. Heráclito dizia que a harmonia nasce dos opostos, mas quando o fluxo interno é amordaçado, a única coisa que resta é uma "guerra" que consome o sujeito por dentro. A Rocha de Parmênides: O "Ser" como Máscara e Prisão Parmênides afirmava que o Ser é...

Aula 02: Heráclito vs. Parmênides – O Conflito entre o Fluxo e a Permanência.

 Bem-vindo à Aula 02. Agora que entendemos como o pensamento racional ( Logos ) nasceu e como ele se aplica aos nossos afetos, vamos ao "embate dos gigantes". Esta aula é fundamental porque tudo o que veio depois na filosofia — de Platão à física quântica — é uma tentativa de responder a estes dois homens. Imagine que você está diante de uma fogueira. O que você vê? Chamas que mudam de forma a cada milésimo de segundo. Se você piscar, a chama já não é a mesma. No entanto, você diz: "A fogueira está ali". Essa é a contradição da realidade: As coisas mudam ou elas permanecem? 1. Heráclito de Éfeso : O Filósofo do "Devir" (Mudança) Heráclito (c. 535 – 475 a.C.) é conhecido como "o Obscuro". Para ele, a essência do mundo é o movimento.    Panta Rhei : "Tudo flui". O universo é como um rio. A estabilidade é uma ilusão dos nossos sentidos lentos.    A Unidade dos Opostos : A realidade é mantida pela tensão. O dia só existe porque existe a n...

Amizade. O Paradoxo da Perto-Distância: Uma Tensão entre o Fluxo, a Essência e a Alma Dividida

A amizade na era digital é o campo de batalha perfeito para as ideias de Heráclito e Parmênides , mediadas pela ética clássica. Entender por que os laços modernos parecem tão líquidos e, ao mesmo tempo, tão carentes de solidez, exige olhar para o que permanece e o que se transforma. Para Heráclito, a única constante é a mudança. "Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio", pois as águas não são as mesmas e você já não é o mesmo homem. Na vida moderna, a amizade tornou-se puramente heraclitiana. Nossos vínculos estão no fluxo ( Devir ) perpétuo dos algoritmos . A Efemeridade: Amizades que nascem em um grupo de WhatsApp , brilham intensamente por uma semana e morrem no silêncio do "visto por último". Tudo flui, nada permanece. O Conflito como Motor: Heráclito acreditava que a luta ( Pólemos ) é a mãe de todas as coisas. Hoje, ao "bloquear" o diferente, interrompemos o fluxo da vida e criamos uma estagnação que mata o aprendizado. Já Parmênides afirmava o o...

Aula 01: Dos Mitos ao Logos

O Nascimento do Pensamento Racional ​Imagine um mundo onde não existissem a meteorologia , a biologia ou a física . Se um raio caísse, era a fúria de Zeus. Se o mar ficasse revolto, era o temperamento de Poseidon . Isso é o Mito: uma narrativa sagrada que explica a realidade através de forças sobrenaturais e vontades divinas. ​Por volta do século VI a.C., na Grécia, surge o Logos. Essa palavra significa "razão", "discurso" ou "estudo". Os primeiros filósofos (os pré-socráticos ) começaram a perguntar: "E se o raio não for um deus, mas apenas o resultado de leis naturais?". ​A transição do Mito ao Logos não foi apenas trocar uma história por outra, mas mudar a forma de validar a verdade. No Mito, a verdade vem da autoridade (o poeta, o oráculo). No Logos, a verdade vem da demonstração e do debate.1. O Cenário: Por que na Grécia e por que naquela época? Antes dos gregos, civilizações como a Egípcia e a Babilônica já possuíam conhecimentos avanç...

O Chamado à Existência Autêntica. Meditação Filosófica/Teológica de Marcos 1,14-20

 Esta é uma passagem fundamental do Evangelho de Marcos (1,14-20) que marca o início do ministério público de Jesus. Para uma apresentação de caráter católico-filosófico, podemos analisar este texto sob a ótica da Fenomenologia , do Existencialismo Cristão e da Metafísica da Vontade . O texto inicia com a proclamação: "O tempo já se completou". Na filosofia grega, distinguimos o Chronos (o tempo sequencial, quantitativo) do Kairós (o momento oportuno, qualitativo). Sob a ótica da Teologia da História , a vinda de Cristo transmuta o tempo. Aqui, o "tempo cumprido" não é apenas o fim de uma contagem regressiva, mas a irrupção do Eterno no temporal. De uma perspectiva fenomenológica, a presença de Jesus altera a percepção da realidade dos pescadores: o mundo não é mais um ciclo repetitivo de lançar redes, mas um horizonte de significados novos que se abre. O imperativo " Convertei-vos " (em grego, Metanoia ) vai além do arrependimento moral. Filosoficament...