O Fogo nos Ossos e a Ilusão de se Poupar. Meditação Filosófica/Teológica do 22°Domingo do tempo comum, ano A
Há manhãs em que o café parece amargar não pela torra do grão, mas pelo peso da própria lucidez. Olhando a pressa diária do mundo, cada pessoa correndo para garantir o seu espaço e a sua segurança, é impossível não pensar no velho profeta Jeremias e no seu desabafo visceral. Ele tentou silenciar, tentou engolir as palavras que incomodavam a sociedade ao seu redor. Mas a Verdade, quando nos captura, não aceita ser domesticada. Ela queima. É um fogo ardente preso nos ossos, uma sedução irresistível e, quase sempre, angustiante. Dizer o que precisa ser dito, em meio a tantos silêncios comprados, custa caro. Vivemos em uma época que idolatra o conforto, o acúmulo e a vitória a qualquer preço. O nosso "bom senso" contemporâneo é exatamente o mesmo de Pedro, quando tomou Jesus à parte para repreendê-lo diante do anúncio do sofrimento. A lógica humana sussurra e, por vezes, grita em nossos ouvidos todos os dias: "Poupa-te! Protege o teu! Foge de qualquer dor!". O instinto...