O Eco do Tambor e o Silêncio da Cinza: A Dialética do Recomeço
A Quarta-feira de Cinzas é o momento em que o Ocidente retira a fantasia e se depara com o espelho. É o choque entre a euforia heraclitiana da festa e a sobriedade parmenidiana da existência, mediadas pela busca de uma vida que faça sentido no cotidiano, na chamada "normalidade".
1. A Euforia de Heráclito: O Fogo que Consome
O Carnaval é o auge do fluxo de Heráclito. É o momento em que o "fogo" da festa tudo consome: as identidades se dissolvem sob máscaras, o tempo parece parar em um presente eterno de prazer e o corpo se entrega ao devir. É uma euforia necessária, mas esgotável.
Quando a música para, sobra o silêncio. As cinzas nos lembram que não podemos viver apenas do "incêndio" sensorial. A festa é o rio que transborda; a quarta-feira é o rio retornando ao seu leito, convidando-nos a processar o que foi vivido.
2. A Cinza como Verdade (O Ser além da Máscara)
Enquanto a festa é o reino dos Sofistas — onde a aparência, o brilho e a performance de felicidade são tudo — a quarta-feira é o domínio da verdade nua.
No Carnaval, usamos máscaras para brincar; na normalidade, muitas vezes usamos máscaras para sobreviver e esconder nossa real inclinação. As cinzas borram essas máscaras sociais. Elas nos devolvem ao nosso Ser (Parmênides), despido de artifícios. Recomeçar na normalidade significa ter a coragem de levar para o dia a dia a essência que descobrimos no silêncio, sem precisar do "transe" da festa para sermos nós mesmos.
3. A Fé no Transcendente: O Sentido na Rotina
A normalidade pode parecer cinzenta e fria após a euforia, mas é nela que a Fé opera o seu maior milagre. A fé no Transcendente nos ensina que o sagrado não está apenas nos picos de alegria, mas na santidade do cotidiano.
O desejo de uma vida livre e feliz não se realiza no excesso, mas na paz de uma consciência integrada. A fé nos dá a certeza de que somos amados pelo que somos na "segunda-feira", sem purpurina. É a libertação de saber que o Transcendente habita a nossa verdade mais íntima, validando nossa caminhada rumo a uma vida plena e autêntica.
4. A Eudaimonia e o Novo Momento
Aristóteles nos diria que a felicidade não é um estado de excitação (euforia), mas uma atividade de excelência (vida boa).
Que as cinzas não sejam um sinal de tristeza, mas o adubo para uma normalidade extraordinária. Que o recomeço seja a transição de uma "alma dividida" entre a festa e a repressão para uma alma unificada pela aceitação.
Que a poeira da festa assente para que a luz da verdade brilhe. Desejamos que este novo ciclo seja mais que um retorno à rotina; que seja o início de uma caminhada libertadora, onde a felicidade não dependa do barulho externo, mas da música suave de uma alma que finalmente se sente em casa, em paz com sua inclinação e conectada ao Infinito.
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