A Máscara da Palavra e a Verdade do Desejo: O Sofismo do Eu
Na Grécia de Protágoras, a palavra era uma ferramenta de poder. Hoje, na modernidade ocidental, a nossa "retórica" é o nosso perfil social, a nossa postura profissional e a forma como narramos nossa própria vida para os outros.
1. A Retórica da Normalidade
Muitas vezes, aquele que vive uma inclinação reprimida torna-se o sofista de si mesmo. Ele desenvolve uma oratória impecável, uma linguagem corporal estudada e argumentos sólidos para provar ao mundo que ele se encaixa no padrão parmenidiano (a estabilidade do "Ser" esperado).
O convencimento como sobrevivência: Aqui, a retórica não é usada para ganhar um debate na Ágora, mas para ganhar o direito de pertencer à família ou ao grupo social. A pessoa convence os outros de que é "normal" (dentro do conceito sofista de que a normalidade é apenas uma convenção social).
2. O Relativismo Ético e a Sexualidade
Para os sofistas, a moral era uma questão de Nomos (lei/convenção), não de Physis (natureza).
Se a sociedade diz que "X" é o certo, o sofista ensina como parecer que se segue "X".
A dificuldade surge quando a Physis (a inclinação real, o fluxo de Heráclito) grita contra o Nomos (a regra social). O indivíduo vive no relativismo: para o mundo, ele é uma coisa; para si mesmo, ele é outra. A verdade torna-se fragmentada.
3. A Sedução da Imagem (Górgias e o Vazio)
Górgias dizia que a palavra podia "enfeitiçar" a alma. Na era digital, as redes sociais são o auge desse feitiço.
Construímos narrativas de felicidade e relacionamentos "perfeitos" para esconder o vazio de uma vida vivida sem autenticidade.
O perigo do sofismo moderno é que, de tanto convencer os outros, a pessoa pode acabar se perdendo na própria mentira, esquecendo-se da sua "alma dividida" de Aristóteles que clama por integração.
A Palavra que Liberta vs. A Palavra que Esconde
A aula dos Sofistas nos ensina que o discurso tem poder. Na vida moderna, podemos usar esse poder de duas formas:
O Sofismo do Esconderijo: Usar a retórica para construir uma fachada social perfeita, garantindo aceitação ao custo da própria verdade.
A Retórica da Libertação: Usar o poder da palavra (o Logos) para desafiar as convenções, nomear o próprio desejo e construir novos significados para a identidade, saindo da sombra para a luz da própria realidade.
Em uma sociedade que valoriza mais a "narrativa" do que os fatos, quão fácil é para nós fingirmos ser quem não somos? E qual o custo de "vencer o debate" social enquanto perdemos a nossa essência?
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