O Logos e a Unidade. Meditação Filosófica/Teológica de João 10, 22-30
A liturgia de hoje nos coloca diante de um dos momentos mais densos do Evangelho de João. O cenário é a Festa da Dedicação, no Templo, sob o Pórtico de Salomão. Filosoficamente, o debate aqui não é apenas religioso, mas ontológico.
Os judeus cercam Jesus e perguntam: "Até quando nos deixarás em dúvida? Se tu és o Cristo, dize-nos abertamente". Sob a ótica filosófica, há aqui um problema de epistemologia. Eles buscam uma prova lógica ou política, um silogismo que force o assentimento.
No entanto, Jesus responde que a prova já foi dada através das suas obras. A fé não é uma conclusão matemática, mas um ato da vontade iluminada pela graça. Como diria Santo Agostinho, Credo ut intelligam" (Creio para que possa entender). A incapacidade de reconhecer Jesus não é por falta de evidência, mas por falta de pertença: Vós não acreditais porque não sois das minhas ovelhas".
O ápice do texto é a declaração: "Ego et Pater unum sumus". A Distinção: Ele não diz unus (uma só pessoa), o que seria o erro do sabelianismo, mas unum (uma só coisa/substância).
A Comunhão: Do ponto de vista metafísico, Jesus afirma uma unidade de essência. Ele é o Logos encarnado, a Razão que sustenta o ser. Se Deus é o "Ato Puro", Jesus se apresenta como a manifestação histórica dessa mesma vontade divina.
Na primeira leitura, vemos a Igreja se expandindo até Antioquia. É aqui que os discípulos são chamados de "cristãos" pela primeira vez.
Filosoficamente, isso representa a passagem do particular para o universal. O Cristianismo deixa de ser uma seita judaica para se tornar uma proposta católica (universal). A "mão do Senhor", mencionada no texto, é a força motriz que atua na história, transformando a contingência dos eventos (a perseguição após a morte de Estêvão) em uma teleologia (um propósito final) de salvação para todos os povos.
Em suma, as leituras de hoje propõem que a verdade sobre Deus não é algo que se "arranca" através de pressões externas, mas algo que se acolhe através da escuta da voz (a dimensão existencial da fé).
Para a filosofia cristã, a segurança do crente não reside em uma abstração, mas na promessa de que "ninguém as arrebatará de minha mão". É a afirmação de que o Ser (Deus) é, em última análise, Amor e Cuidado, e que a nossa identidade definitiva é encontrada na comunhão com Aquele que é a fonte de toda a realidade.
"O reconhecimento de Cristo exige mais que visão ocular; exige uma sintonia da alma com a Verdade que Ele personifica."
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