Sem Alforge e com a Alma Aberta: Uma Crônica sobre a Geometria do Cuidado. Reflexão Filosófica/Teológica de Mateus 10, 7-15
Há um paradoxo incômodo na poética do Evangelho de Mateus (10, 7-15). Jesus convoca seus amigos para uma missão grandiosa: curar, consolar, ressuscitar as esperanças mortas do mundo. Mas o preço do ingresso nessa jornada é a nudez social. "Não possuais ouro, nem prata... nem alforge para o caminho, nem duas túnicas".
À primeira vista, o comando parece uma apologia ao desamparo. Afinal, fomos educados pela modernidade para acumular. Medimos nossa segurança pela espessura das nossas carteiras, pela solidez das nossas certezas e pelo estoque de garantias que guardamos no armário para o inverno. Jesus, no entanto, propõe o oposto: uma desinstalação existencial forçada. Ele arranca o alforge dos ombros dos discípulos porque sabe que o excesso de bagagem nos impede de abraçar o imprevisto.
Ao proibir o ouro, Cristo convida àquilo que os teólogos chamam de Kênosis — o esvaziamento de si — e que os existencialistas, como Gabriel Marcel, definiriam como a coragem de largar o ter para simplesmente ser. Quem caminha sem alforge não tem onde esconder seu medo. Fica exposto, vulnerável. Mas é precisamente nesse deserto de artifícios que a mágica acontece. É ali que se abre espaço para a Providência.
A Providência, convenhamos, quase nunca chega com trombetas celestes ou anjos reluzentes. Na poeira da estrada humana, a Providência usa chinelos e tem o rosto do vizinho. Jesus orienta: "Em qualquer cidade em que entrardes, procurai saber quem nela seja digno, e ficai ali". Há uma mística profunda na hospitalidade. Quando tudo parece perdido para quem caminha sem teto e sem rumo, o milagre não é o pão cair do céu; o milagre é uma porta se abrir.
Aparece alguém. Um desconhecido ou um amigo que decide interromper a linearidade fria do seu tempo relógio (Chrónos) para inaugurar o tempo da graça (Kairós). O filósofo Emmanuel Levinas dizia que o rosto do Outro nos convoca a uma responsabilidade intransferível. Quando alguém nos estende a mão no momento em que nossas forças humanas se esgotaram, não estamos diante de uma mera coincidência estatística. Estamos diante de um evento metafísico. Aquele que ajuda torna-se o próprio rosto de Deus na Terra.
E o que resta a quem foi ajudado? A gratidão. Mas não a gratidão burocrática do obrigado automático, e sim a gratidão como postura de vida.
Aceitar ajuda dói no orgulho. O mito moderno do homem autossuficiente detesta o conceito de dependência. No entanto, o Evangelho nos lembra que somos radicalmente interdependentes. A gratidão autêntica descrita por filósofos como Paul Ricoeur não é um balanço comercial onde se paga o bem recebido; é uma ciranda estética. "De graça recebestes, de graça dai". O que você recebeu em forma de amparo, você não devolve ao benfeitor — você espalha pelo mundo.
Jesus encerra o trecho com uma sabedoria poética sobre a paz. Se a casa for digna, a vossa paz repousará sobre ela; se não for, a vossa paz retornará para vós. A paz (Shalom) é quase uma substância física nessa crônica da estrada. Ela circula, procura abrigo. Se encontra eco na generosidade, ali faz morada. Se encontra o muro de ferro do egoísmo alheio, ela não se destrói: ricocheteia e volta para quem a carregava no peito.
Olhando para nossas próprias vidas, todos nós já estivemos na pele do caminhante de Mateus. Quantas vezes a vida nos confiscou o alforge? Quantas vezes nos vimos descalços diante de invernos imensos, convictos de que era o fim da linha? E então, inexplicavelmente, a porta abriu. Alguém apareceu. Alguém ouviu o nosso silêncio e dividiu o pão.
A crônica do envio não é sobre a escassez. É sobre descobrir que a maior riqueza não é o que conseguimos reter nas mãos, mas a coragem de caminhar tão leves que a Providência possa, a qualquer momento, nos alcançar.
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