O Fogo nos Ossos e a Ilusão de se Poupar. Meditação Filosófica/Teológica do 22°Domingo do tempo comum, ano A

 Há manhãs em que o café parece amargar não pela torra do grão, mas pelo peso da própria lucidez. Olhando a pressa diária do mundo, cada pessoa correndo para garantir o seu espaço e a sua segurança, é impossível não pensar no velho profeta Jeremias e no seu desabafo visceral. Ele tentou silenciar, tentou engolir as palavras que incomodavam a sociedade ao seu redor. Mas a Verdade, quando nos captura, não aceita ser domesticada. Ela queima. É um fogo ardente preso nos ossos, uma sedução irresistível e, quase sempre, angustiante. Dizer o que precisa ser dito, em meio a tantos silêncios comprados, custa caro.

Vivemos em uma época que idolatra o conforto, o acúmulo e a vitória a qualquer preço. O nosso "bom senso" contemporâneo é exatamente o mesmo de Pedro, quando tomou Jesus à parte para repreendê-lo diante do anúncio do sofrimento. A lógica humana sussurra e, por vezes, grita em nossos ouvidos todos os dias: "Poupa-te! Protege o teu! Foge de qualquer dor!". O instinto e a razão utilitária nos empurram para a autopreservação absoluta. Afinal, quem em sã consciência escolheria perder?

Mas é precisamente na fresta desse paradoxo que a existência revela a sua densidade mais profunda. A advertência de que quem tenta salvar a própria vida vai perdê-la não é uma ameaça moralista, mas uma constatação filosófica implacável. Aquele que se fecha em uma redoma de segurança, que não se arrisca a amar, a defender o que é justo ou a sofrer por algo maior, acaba esvaziando a si mesmo. A vida, quando apenas guardada e poupada, perde o sentido. Nós só encontramos a nossa verdadeira identidade quando aceitamos nos gastar. Tomar a cruz, portanto, longe de ser um culto ao sofrimento, é a expressão máxima de um propósito.

Aí reside a revolução silenciosa que nos é proposta: a recusa obstinada ao conformismo. Em uma sociedade que exige que nos encaixemos no molde da superficialidade, não nos conformar é um ato de coragem e desobediência. É preciso renovar a mente, rejeitando a tentação de ser apenas um reflexo dócil das vaidades do nosso tempo.

Entre o aplauso fácil e a fidelidade àquilo que realmente importa, a vida nos exige um posicionamento. Que tenhamos, então, a lucidez de não poupar a nossa existência daquilo que a torna grandiosa, aceitando que a única vida que realmente se eterniza é aquela que temos a coragem de entregar.


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