Amizade. O Paradoxo da Perto-Distância: Uma Tensão entre o Fluxo, a Essência e a Alma Dividida

A amizade na era digital é o campo de batalha perfeito para as ideias de Heráclito e Parmênides, mediadas pela ética clássica. Entender por que os laços modernos parecem tão líquidos e, ao mesmo tempo, tão carentes de solidez, exige olhar para o que permanece e o que se transforma.

Para Heráclito, a única constante é a mudança. "Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio", pois as águas não são as mesmas e você já não é o mesmo homem. Na vida moderna, a amizade tornou-se puramente heraclitiana. Nossos vínculos estão no fluxo (Devir) perpétuo dos algoritmos.

A Efemeridade: Amizades que nascem em um grupo de WhatsApp, brilham intensamente por uma semana e morrem no silêncio do "visto por último". Tudo flui, nada permanece.

O Conflito como Motor: Heráclito acreditava que a luta (Pólemos) é a mãe de todas as coisas. Hoje, ao "bloquear" o diferente, interrompemos o fluxo da vida e criamos uma estagnação que mata o aprendizado.

Já Parmênides afirmava o oposto: "O ser é e o não-ser não é". Para ele, a mudança é uma ilusão dos sentidos; a verdade está naquilo que é eterno e imóvel.

No fundo de cada usuário de rede social, reside um desejo desesperado por Parmênides:

 A Identidade Estática: Queremos que o amigo seja uma rocha imutável. No Ocidente, temos dificuldade em perdoar quando alguém muda de opinião. Queremos o "Ser" fixo, mas navegamos no "Não-Ser" das aparências digitais.

 A Eternidade em Pixels: Postamos fotos para imobilizar o tempo. O "TBT" é uma tentativa parmenidiana de dizer: "Este momento é o Ser, ele não mudará".

É aqui que entra a definição clássica de Aristóteles, que parece desafiar tanto o fluxo quanto a imobilidade:

 "A amizade é uma alma que habita dois corpos; um coração que habita duas almas."

Esta citação revela a dificuldade máxima da vida moderna: para que uma alma habite dois corpos, é preciso haver algo de Parmênides (uma essência, um compromisso que não muda com o vento) operando dentro do fluxo de Heráclito (a vida cotidiana que nos transforma).

A "alma dividida" de Aristóteles sugere que a amizade real é uma simbiose ética. Na modernidade ocidental, porém, nossos corpos estão em lugares diferentes, nossas mentes estão em telas diferentes e nossas almas estão fragmentadas. Quando Aristóteles fala em "habitar", ele refere-se à presença. Sem a presença (o Ser), a amizade torna-se apenas um dado (o Fluxo).

A crise da amizade ocidental reside no fato de que exigimos de nossos amigos a estabilidade de Parmênides, enquanto os tratamos com a descartabilidade de Heráclito.

Queremos a segurança de um laço inquebrável (o Ser), mas não temos paciência para o tempo que a mudança exige (o Devir). Ser um amigo hoje é aceitar que as águas do rio vão passar (Heráclito), mas que a "alma dividida" (Aristóteles) permanece ancorada em algo maior do que um clique (Parmênides).

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