O Encontro do Ser com a Misericórdia. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 5,12-16
O texto de Lucas 5,12-16 apresenta não apenas um milagre taumatúrgico, mas um profundo diálogo entre a transcendência divina e a contingência humana. A narrativa do homem "cheio de lepra" que se prostra diante de Jesus evoca questões fundamentais sobre a alteridade, a ética do cuidado e a metafísica da cura.
Sob a ótica da fenomenologia, a lepra não é apenas uma patologia biológica, mas uma "morte social". O leproso é aquele cujo "rosto" foi apagado pela desfiguração. Ao dizer "Senhor, se queres, tens o poder de me purificar", o homem reconhece em Jesus a Alteridade Absoluta.
Filosoficamente, o leproso rompe o isolamento do "eu" para buscar o "Tu" divino. A resposta de Jesus — o toque — é um ato revolucionário: Ele não apenas cura, mas restabelece o vínculo ontológico do homem com o mundo. O toque de Cristo subverte a lógica da impureza legalista, afirmando que a dignidade da pessoa humana precede qualquer norma ritual.
Na perspectiva do existencialismo cristão, a fala do leproso revela uma autoconsciência da própria finitude. Ele não exige; ele propõe uma possibilidade à vontade de Deus ("Se queres...").
Aqui, encontramos um eco do pensamento de Søren Kierkegaard: o salto da fé. O leproso abandona a segurança da lei (que o mandava ficar longe) para se lançar na subjetividade da relação com o Logos encarnado. A cura, portanto, não é um processo mecânico, mas um encontro de liberdades: a carência humana que pede e a Graça divina que responde "Eu quero".
Para a filosofia escolástica e o tomismo, este milagre ilustra a relação entre a Causa Primeira (Deus) e a natureza. São Tomás de Aquino argumentaria que Jesus, sendo o Verbo Encarnado, possui o domínio sobre a matéria.
A Forma: A restauração da saúde como participação na perfeição divina.
A ordem de Jesus para que o homem se apresente ao sacerdote ("para que isso lhes sirva de testemunho") sublinha a harmonia entre Fé e Razão (Fides et Ratio). Jesus não ignora a estrutura social e religiosa vigente; Ele a cumpre para elevar o sinal sensível (o milagre) ao plano do significado espiritual e institucional.
Ao apresentar este texto, destaque que o silêncio de Jesus no deserto (v. 16), após o milagre, é o ponto de equilíbrio filosófico da narrativa:
Ação (Práxis): O toque que cura e reintegra.
Contemplação (Theoria): A retirada para a oração, mostrando que a fonte de toda ação ética e curativa no mundo provém da união com o Transcedente.
O Evangelho de Lucas nos convida a pensar a cura como um processo de re-humanização. Onde a filosofia antiga via o destino (Fatum) e a lei via o castigo, o catolicismo propõe a Misericórdia como a força capaz de reordenar o Ser.
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