O Chamado à Existência Autêntica. Meditação Filosófica/Teológica de Marcos 1,14-20

 Esta é uma passagem fundamental do Evangelho de Marcos (1,14-20) que marca o início do ministério público de Jesus. Para uma apresentação de caráter católico-filosófico, podemos analisar este texto sob a ótica da Fenomenologia, do Existencialismo Cristão e da Metafísica da Vontade.

O texto inicia com a proclamação: "O tempo já se completou". Na filosofia grega, distinguimos o Chronos (o tempo sequencial, quantitativo) do Kairós (o momento oportuno, qualitativo). Sob a ótica da Teologia da História, a vinda de Cristo transmuta o tempo.

Aqui, o "tempo cumprido" não é apenas o fim de uma contagem regressiva, mas a irrupção do Eterno no temporal. De uma perspectiva fenomenológica, a presença de Jesus altera a percepção da realidade dos pescadores: o mundo não é mais um ciclo repetitivo de lançar redes, mas um horizonte de significados novos que se abre.

O imperativo "Convertei-vos" (em grego, Metanoia) vai além do arrependimento moral. Filosoficamente, dialoga com a Epistemologia. Converter-se é mudar a lente através da qual se compreende o Ser.

Como bem pontuado pelo Magistério, a salvação exige a liberdade. Na esteira de Santo Agostinho, a vontade humana é o eixo da conversão. O convite de Jesus não é um determinismo, mas um apelo à liberdade transcendental. É a transição do "homem velho" (preso às imanências e ao ego) para o "homem novo" que se abre à transcendência do Reino.

O encontro de Jesus com Simão, André, Tiago e João exemplifica o que o existencialismo cristão de Gabriel Marcel ou Søren Kierkegaard poderia chamar de "salto da fé" ou "disponibilidade".

O Abandono das Redes: As redes e a barca representam a segurança ontológica, o sustento e a identidade social. O "deixar imediatamente" é o ato supremo de liberdade.

A Vocação como Ser-para-Outro: Ao propor torná-los "pescadores de homens", Jesus redefine a teleologia (a finalidade) de suas vidas. Eles deixam de existir para a captura de recursos (objetos) para existir em função do encontro com o próximo (sujeitos).

A resposta dos discípulos não é baseada em uma teoria, mas em uma pessoa. Diferente da filosofia socrática, onde a verdade é uma ideia a ser alcançada pela razão, no Cristianismo, a Verdade é uma Pessoa (Cristo).

A decisão de Tiago e João de deixar o pai, Zebedeu, na barca, ilustra a ruptura necessária com as estruturas puramente biológicas ou sociais para abraçar uma ética fundada no Reino de Deus. É a primazia da Graça sobre a natureza, onde o chamado divino reordena todos os afetos e prioridades humanas.

A perícope de Marcos 1,14-20 nos convida a entender que o Cristianismo não é um sistema ético estático, mas um acontecimento. Filosoficamente, é a proposta de uma nova forma de estar no mundo, onde a liberdade humana se realiza plenamente ao dizer "sim" ao Amor que a precede. A conversão é, portanto, o ato filosófico mais radical: a coragem de mudar o pensamento para que a vida possa, enfim, florescer na verdade do Evangelho.

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