O Delírio das Alturas: A Soberba
Dizem que a gravidade é uma lei da física, mas na política ela funciona mais como uma força moral. O problema de subir muito alto não é a vista; é que, lá de cima, todo mundo começa a parecer formiga. E quando você passa a ver os outros como insetos, o tombo costuma ser uma questão de tempo.
Os gregos antigos, que tinham uma palavra elegante para cada tragédia humana, chamavam isso de húbris — o orgulho desmedido que desafia os deuses. Na teologia, a soberba é o primeiro dos pecados, a raiz de onde brotam todas as outras ervas daninhas da alma. Mas se sairmos da sacristia e olharmos para o mapa-múndi, percebemos que a soberba é, na verdade, o grande motor da história. E, quase sempre, o seu freio de mão puxado de forma violenta.
Repare bem. Thomas Hobbes escreveu que criamos o Estado — aquele Leviatã monstruoso e necessário — para não nos matarmos uns aos outros na escuridão. O drama começa quando o Leviatã se olha no espelho de manhã, ajeita a gravata e decide que é um deus.
Na geopolítica de nossos dias, a soberba atende pelo nome gourmet de "excepcionalismo". É aquela mania quase infantil que certas superpotências têm de acreditar que suas fronteiras são sagradas, suas intenções são puras e que o resto do mundo é apenas um rascunho esperando para ser editado à sua imagem e semelhança. O soberbo não conversa; ele dita. Ele não estuda a história; ele acha que a escreve em tempo real.
O erro fatal da soberba, no entanto, é sociológico. Ela anestesia a empatia. Quando um império — ou uma elite financeira trancada em seus condomínios de vidro — perde a capacidade de olhar para o "outro" e enxergar um igual, ele perde também o instinto de sobrevivência. Ignora-se a periferia, despreza-se o ressentimento que cresce nos becos e esquece-se de que os maiores impérios da Terra não caíram sob o peso de exércitos colossais, mas ruíram por dentro, cupinizados pela própria arrogância.
Hoje, nossa soberba não usa coroas de ouro. Ela é mais sutil. Veste o terno cinza dos algoritmos e fala com o sotaque do tecnodesenvolvimentismo. Acreditamos piamente que a tecnologia vai nos salvar de nós mesmos, que podemos esgotar o planeta e comprar a saída de emergência na próxima nave espacial. É o delírio da técnica: a ilusão de que podemos dobrar a biologia sem que a natureza nos apresente a conta no guichê do tempo.
No fim, o que resta é o silêncio que sucede o estrondo.
Erguemos torres com o barro do consenso, e sobre o solo de ossos esquecidos, julgamos que o azul do céu é nossa herança.
Mas o vento, que não conhece impérios, sopra o pó das coroas na planície. Toda soberba é um monumento de areia esperando a maré alta da história.
Quem tem olhos para ver o presente sabe: a soberba nunca foi uma questão de altura. É apenas a distância exata que nos separa do chão onde, inevitavelmente, todos vamos nos encontrar.
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