O Silêncio Depois do Dogma. Meditação Filosófica/Teológica da 19° semana do tempo comum.
A liturgia da Igreja Católica reserva estes dias para o que chama de "Tempo Comum". Não há a pompa visual do Natal, a severidade da Quaresma ou o júbilo da Páscoa. Estamos na 19ª semana desse ciclo ordinário — aquele período exato em que as grandes festas acabam, a poeira baixa e a rotina cobra o seu preço.
Para quem decidiu não mais aceitar dogmas, a existência inteira passa a ser um corajoso Tempo Comum.
A recusa das doutrinas fechadas raramente nasce do desejo de destruir o mistério; nasce, quase sempre, da mais pura honestidade intelectual. É o momento em que as respostas prontas da infância deixam de caber nas dores adultas, e a mente se recusa a aceitar verdades impostas apenas por autoridade ou medo. O altar do dogma desmorona por dentro, e o céu, antes povoado por decretos, torna-se subitamente aberto.
Mas os textos antigos preservados na liturgia desta semana guardam reflexões filosóficas profundas para quem trocou a obediência cega pela busca consciente.
Na narrativa do profeta Elias, no Livro dos Reis, um homem exausto corre para a montanha esperando uma manifestação grandiosa. Vem um vento impetuosíssimo que fende as rochas, mas o essencial não está no vento. Vem um terremoto, mas nada se revela. Vem o fogo, e o silêncio continua. Por fim, surge uma brisa leve, um murmúrio quase imperceptível.
Desconstruir o dogma é abandonar a ilusão dos "terremotos e fogos": os discursos moralistas, as ameaças de castigo e as promessas de milagres sob demanda.
A rejeição da doutrina não é o fim da busca; é o instante em que paramos de engolir certezas alheias para finalmente escutar a brisa da realidade.
Quem abandona as fórmulas prontas pode sentir a falta de um chão sob os pés no início. No entanto, o fim da imposição não precisa ser o desamparo. É, em vez disso, o espaço onde a consciência pode finalmente pensar sem as amarras da culpa.
Em outro trecho emblemático da semana, no Evangelho de Mateus, narra-se a tentativa de caminhar sobre águas agitadas. O medo de afundar surge no exato momento em que o controle escapa das mãos e a tempestade aperta.
Para quem questiona as verdades estabelecidas, a dúvida é essa caminhada sobre a água. É a experiência de não ter um corrimão doutrinário onde se segurar. É assumir a responsabilidade de quem escolhe examinar o mundo com os próprios olhos, aquilo que Jean-Paul Sartre chamava de assumir a própria liberdade radical.
Trocar a certeza ingênua pela dúvida investigativa exige coragem. Afundar nas perguntas sem respostas imediatas é desconfortável, mas é a única forma de amadurecer. A dúvida não é uma falha moral; é a ferramenta máxima da integridade humana.
A liturgia da semana também aborda a metáfora da fome e do "pão da vida" no Evangelho de João. É fácil esquecer que, antes de se tornar um símbolo teológico engessado em ritos e proibições, o pão era simplesmente o alimento que sustentava o corpo e reunia as pessoas ao redor da mesa.
Ao recusar o dogma, não se perde a fome de sentido, de ética ou de beleza. A diferença é que o "pão" deixa de ser a aceitação cega de uma cartilha e passa a ser a experiência direta do mundo: a arte que emociona, a investigação científica, a conversa sincera e a solidariedade genuína, aquela que estende a mão ao outro não por medo do inferno, mas por empatia humana.
A 19ª Semana do Tempo Comum nos lembra, paradoxalmente, que a vida não precisa de mitos rígidos para ser profunda. Afastá-los é um ato de respeito pela própria inteligência. Ao libertar o pensamento das amarras doutrinárias, a existência ganha uma clareza renovada:
A verdade não é um pacote fechado que se herda, mas um caminho que se constrói. O valor moral de uma ação não vem do temor a um código externo, mas da consciência do impacto que causamos nos outros.
O mistério do universo não precisa de explicações simplistas; a própria complexidade de estarmos vivos já é motivo suficiente de espanto e reverência.
Recusar o dogma não é fechar os olhos para o transcendente. É apenas abrir mão dos velhos mapas para ter a coragem de explorar o território com os próprios pés.
Bibliografia
BÍBLIA SAGRADA. Primeiro Livro dos Reis (1Rs 19, 9a.11-13a.
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo Mateus (Mt 14, 22-33.
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo João (Jn 6, 41-51.
SARTRE, Jean-Paul. O Existencialismo é um Humanismo. São Paulo: Nova Cultural, 1987.
* SPINOZA, Baruch. Tratado Teológico-Político. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
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