Dia 6: O Apocalipse do Garfo (A Gula)

Se a luxúria busca o corpo do outro e a ganância quer o seu patrimônio, a gula faz algo ainda mais radical: ela devora o próprio mundo. Na catequese infantil, ensinaram-nos que a gula é o prato repetido no domingo, a segunda fatia de bolo fora de hora. Mas basta olhar para o mapa-múndi com um café na mão para perceber que a verdadeira gula não mora no estômago. Mora no sistema.

A gula é o pecado do excesso sem propósito. É o ato de engolir não por fome, mas por ansiedade; não para se nutrir, mas para preencher um vazio que o alimento jamais conseguirá alcançar.

Na sociologia contemporânea, Ulrick Beck falava sobre a "sociedade de risco", mas hoje vivemos na sociedade da obesidade sistêmica. Não apenas a biológica, mas a de dados, de consumo, de plástico e de resíduos. Devoramos giga-bytes de informação inútil por minuto, toneladas de embalagens de uso único e montanhas de roupas baratas descartadas antes da próxima estação. O guloso moderno é um bulímico cultural: consome freneticamente tudo o que o mercado coloca no seu prato e regurgita o excesso na forma de lixo, ansiedade e tédio.

Na filosofia política, a gula atende pelo nome de extrativismo predatório. É a recusa deliberada da pólis em aceitar a ideia de limite. Thorstein Veblen, ao conceituar o "consumo conspícuo", já nos alertava no século XIX: em determinado estágio da civilização, a elite não consome mais pela utilidade do bem, mas pelo espetáculo do desperdício. Ter o suficiente virou sinal de fracasso; a fartura grotesca tornou-se o único certificado de sucesso.

E a geopolítica? Ah, a geopolítica da gula é a mais digestiva e sanguinária de todas. É a geopolítica das pegadas ecológicas desproporcionais. Um pequeno grupo de países ricos e suas corporações transnacionais engole mais energia, água, minérios e proteína animal do que continentes inteiros. O Sul Global entra com os ingredientes e a cozinha; o Norte Global senta-se à mesa, exige serviço de banquete e, no fim, joga os restos e a poluição de volta na horta do vizinho.

É a indigestão da Terra. A ironia trágica da gula planetária é que ela nos leva a um cenário onde a abundância de uns poucos gera a escassez de quase todos. Devoramos o futuro das próximas gerações como se fosse um aperitivo antes do prato principal.

Sentamos à mesa da Terra com dentes de ferro, comemos a floresta, bebemos o rio, e pedimos a sobremesa ao garçom do progresso.

Não há fome no mundo que o prato não cure, mas não há banquete no mundo que preencha a garganta profunda da nossa insaciabilidade. Mastigamos o amanhã e cuspimos o nada.

No fim, a gula revela a sua verdadeira face: ela não é amor à comida ou à vida; é pavor da finitude. O guloso tenta devorar o tempo para não ser devorado por ele. Mas a história é inflexível: quem come além do que a terra suporta acaba engasgado com as próprias cinzas.

Beck, Ulrich. Sociedade de Risco: Rumo a uma outra modernidade. São Paulo: Editora 34, 2010.

Veblen, Thorstein. A Teoria da Classe Ociosa: Um estudo econômico das instituições. São Paulo: Nova Cultural, 1988.


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