O Altar, a Farda e o Fuzil: A Tríplice Aliança da Dominação. Meditação Filosófica/Teológica de Mateus 23, 23-26

 A denúncia contida em Mateus sobre lavar a superfície do copo enquanto seu interior armazena a rapina ganha contornos hipertrofiados na política contemporânea. O fenômeno em que a extrema-direita se entrelaça a vertentes do fundamentalismo evangélico, às milícias e ao crime organizado — frequentemente batizado por sociólogos como "narcopentecostalismo" ou "narcomilícia" — representa a expressão máxima da manipulação da fé para o domínio territorial, financeiro e político de populações vulneráveis.

​Essa articulação supera o mero cinismo individual; trata-se de um projeto estruturado de poder que ressignifica o sagrado para legitimar a violência.

​Nas periferias e grandes centros urbanos, o discurso político que instrumentaliza a religião constrói o exterior do "copo limpo" por meio do pânico moral: a defesa rígida da "família tradicional", o combate às pautas de gênero e a criminalização de cultos de matriz africana. Enquanto essa agenda de costumes é alardeada no púlpito e no parlamento para anestesiar a crítica social, os bastidores da aliança acumulam renda através da extorsão militarizada, da venda ilegal de serviços básicos (gás, água, internet) e do comércio de entorpecentes.

​O dízimo e a propina fundem-se em um mesmo ecossistema financeiro. A teologia da prosperidade é adaptada para respaldar o enriquecimento ilícito do miliciano e do parlamentar, transformando o sucesso financeiro derivado do crime em uma suposta "bênção divina" ou recompensa pela fidelidade doutrinária.

​Assim como na crítica nietzschiana sobre o uso da culpa como instrumento de domesticação, as populações sob o domínio das narcomilícias são submetidas a uma dupla coerção: a física (o fuzil) e a metafísica (a condenação eterna). A manipulação política se consolida através do chamado "voto de cabresto evangélico-miliciano".

​O miliciano ou o chefe do tráfico convertido (como nos territórios do Complexo de Israel) veta a entrada de candidatos de oposição, persegue lideranças comunitárias progressistas e impõe pastores-políticos alinhados à extrema-direita como as únicas opções eleitorais viáveis. A fé é convertida em moeda de troca partidária, garantindo a bancadas reacionárias uma base eleitoral cativa e territorialmente controlada.

​Sob o prisma da análise marxista da ideologia, o discurso dos políticos ligados a esse ecossistema converte problemas estruturais de desigualdade em "guerras espirituais". Quando a pobreza, a falta de saneamento e a brutalidade policial são enquadradas não como falhas do capitalismo periférico, mas como ações do "demônio", elimina-se a possibilidade da consciência de classe.

​O Estado falho cede espaço a um arranjo onde a proteção comunitária é vendida pela milícia, a salvação da alma é intermediada pela igreja mercantilizada e a impunidade jurídica é garantida pelo parlamentar eleito por essa mesma engrenagem. Trata-se de uma simbiose na qual a extrema-direita fornece o aparato legal e a blindagem institucional, e o crime territorial entrega o curral eleitoral e o financiamento de campanha.

​A atualização da crítica de Mateus revela que os "guias cegos" do tempo presente não apenas coam o mosquito e engolem o camelo — eles armam o braço do crime com a Bíblia numa mão e a arma na outra, mantendo o povo refém da promessa do céu enquanto transformam a terra em um feudo de exploração.

Bibliografia

​BÍBLIA SAGRADA. Tradução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Evangelho segundo Mateus, cap. 23, v. 23-26.

​MANSO, Bruno Paes. A república das milícias: Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro. São Paulo: Todavia, 2020.

​MARX, Karl. Sobre a Questão Judaica. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2010.

​NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo: Praga contra o cristianismo. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

​VITAL DA CUNHA, Christina. Oração de traficante: Segunda vinda? Rio de Janeiro: Editora Garamond, 2014.

​SOUZA ALVES, José Cláudio. Dos fuzilados aos elegíveis: A violência política na Baixada Fluminense. Rio de Janeiro: Ensp/Fiocruz, 2003.

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