O Logos Encarnado: Uma Síntese entre a Fé e a Razão. Meditação Filosófica/Teológica de João 1, 1-18
O Prólogo de João não é apenas um texto teológico; é um dos monumentos mais sofisticados da filosofia cristã. Ao utilizar o termo Logos (Verbo/Palavra), o evangelista estabelece um diálogo imediato com a tradição helênica. Se para os gregos o Logos era a estrutura racional do universo, para João, essa Razão não é uma força abstrata, mas uma Pessoa.
Para compreender o impacto de "No princípio era o Logos", devemos observar as correntes que moldavam o pensamento da época:
Para os estoicos, o Logos era a Razão Universal que ordenava o cosmos. João herda essa ideia de ordem, mas rompe com o panteísmo estoico ao afirmar que o Logos é distinto da criação e coeterno com o Criador.
A distinção entre a "Luz" e as "Trevas" em João ressoa a alegoria da caverna de Platão. O Logos é a Verdade Arquetípica, a luz que permite ao homem conhecer a realidade. Contudo, enquanto Platão buscava a ascensão da alma ao mundo das Ideias, João apresenta o movimento inverso: a Ideia Suprema desce ao mundo sensível.
Filo, filósofo judeu contemporâneo, já tentava mediar o pensamento bíblico com o grego, tratando o Logos como um intermediário. João leva isso ao ápice teológico: o Logos não é apenas um "mensageiro", mas o próprio Deus em Sua autoexpressão.
Na Ruptura Metafísica: "E o Verbo se fez Carne", o verso 14 representa o maior escândalo filosófico da Antiguidade. Para o pensamento grego (especialmente o platonismo e o gnosticismo), a matéria era considerada inferior, limitada ou até maligna. A afirmação de que o Logos (eterno, imutável) se tornou Sarx (carne, contingente, mortal) quebra o dualismo grego.
Sob a ótica Aristotélica, poderíamos dizer que em Cristo ocorre a união perfeita da substância divina com a natureza humana. É a "Capax Dei": a natureza humana é elevada à sua máxima potência por ser assumida pelo Verbo.
Em uma Dimensão Epistemológica: A Luz e o Conhecimento, a exegese enfatiza que o Logos é a "Luz que ilumina todo homem".
Filosoficamente, isso toca na Teoria da Iluminação: o conhecimento da verdade não é apenas um esforço humano, mas uma participação na inteligência divina. João propõe que a Verdade (Alethia) não é apenas um conceito a ser descoberto pela lógica, mas um encontro pessoal. Se a filosofia é o "amor à sabedoria", João apresenta a "Sabedoria que se deixa amar".
O Prólogo conclui que "ninguém jamais viu a Deus", mas o Filho o "explicou" (exēgēsato – de onde vem exegese). Na apresentação cristã, o Logos é o fundamento da Ontologia (o estudo do ser). Sem o Verbo, o mundo seria um caos de fatos isolados; com o Verbo, o universo torna-se um "Cosmos" — uma totalidade ordenada e inteligível.
Apresentar João 1, 1-18 é demonstrar que o cristianismo não anula a filosofia, mas a completa, dando um rosto humano à Razão que os filósofos buscavam entre as estrelas e os conceitos.
Comentários
Enviar um comentário