A Curva da Fé e o Conhecimento Sensível. Meditação Filosófica/Teológica de Mateus 9,27-31

 O trecho do Evangelho de Mateus 9,27-31 narra a cura de dois cegos e, em seguida, a de um mudo possuído. O milagre centraliza-se na condição da fé para a obtenção da cura, proporcionando uma rica reflexão sobre a gnose (o conhecimento) e a vontade sob a luz da Doutrina e do diálogo com a Filosofia.

O ponto crucial da narrativa ocorre no versículo 28, onde Jesus questiona os cegos: "Credes que eu posso fazer isso?". Após a resposta afirmativa ("Sim, Senhor"), Ele responde com a fórmula fundamental: "Seja feito conforme a vossa fé."

O ato de crer não é meramente um assentimento intelectual (epistemologia), mas um ato da vontade (voluntarismo) que aceita uma verdade que transcende o conhecimento empírico.

Este evento dialoga com o Voluntarismo (a primazia da vontade sobre o intelecto), como o proposto em certas linhas de Santo Agostinho e, mais tardiamente, por filósofos como Duns Scotus. Para o Voluntarismo Teológico, a escolha de crer é o primeiro passo para o verdadeiro conhecimento de Deus.

A cura não é um ato automático de poder, mas uma resposta à liberdade humana que se abre à Graça. A fé é, portanto, a disposição fundamental que capacita a mente a receber a Verdade divina.

A fé é definida pela Igreja não apenas como crença, mas como o dom de Deus que permite ao homem entregar-se plenamente a Ele. A fé é a certeza das coisas que não se veem, aperfeiçoando a razão humana e permitindo-lhe acessar verdades reveladas que seriam inatingíveis apenas pelo intelecto natural.

Os cegos recuperam a visão, passando do estado de privação (a cegueira) para a plenitude do sentido (o ver). A cura da cegueira e do mutismo restabelece a relação correta do homem com o mundo, mediada pelos sentidos. De acordo com o Aristotelismo e o Tomismo, todo o nosso conhecimento natural (Nihil est in intellectu quod non prius fuerit in sensu – Nada está no intelecto que não tenha estado primeiramente nos sentidos) tem início na experiência sensível.

O milagre, ao restaurar a capacidade de ver e falar, afirma a bondade fundamental da ordem natural e dos sentidos como vias legítimas (embora limitadas) do conhecimento. A cura não nega o corpo ou os sentidos, mas os restaura à sua função original dentro da ordem criada por Deus.

A Igreja valoriza a criação e o corpo (contra o dualismo radical), e o milagre reforça que Deus interage com o homem através de sua corporeidade. A visão, o tato e a fala são meios pelos quais o homem se comunica com a Verdade e a proclama.

Jesus ordena aos curados que não contem a ninguém ("Vede que ninguém o saiba"), mas eles, ao saírem, espalham a notícia por toda a região.

Este momento cria uma tensão ética entre a obediência ao mandato explícito de Jesus e o impulso natural de testemunhar a Verdade e a Graça recebida.

Embora a doutrina moral dê grande peso à obediência (Deontologia do dever), o resultado (o Consequencialismo teológico) é que a notícia do poder de Cristo se espalha, servindo ao propósito maior da revelação do Reino. Neste caso, a superabundância do testemunho supera a restrição temporária.

A proclamação do milagre é o reconhecimento público da Verdade do poder de Jesus, que é a base da ação evangelizadora da Igreja.

Em suma, Mateus 9,27-31 é um texto que, através do milagre da cura, estabelece a fé como a chave da epistemologia divina e a vontade como a porta para a Graça. Ele reafirma o valor do conhecimento sensível restaurado, ao mesmo tempo em que coloca a ação de crer (voluntarismo) como a condição necessária para acessar a Verdade Transcendental que se manifesta na vida humana.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Jesus andando sobre as águas. Meditação Filosófica/Teológica sobre Mateus 14, 22-36

Senhor ensina-nos a rezar. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 11,1-4.

A porta estreita. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 13:22-30.