Multiplicação dos Pães e a Plenitude da Graça. Meditação Filosófica/Teológica de Mateus 15,29-37

O trecho do Evangelho de Mateus 15,29-37, que narra a segunda multiplicação dos pães (quatro mil homens, sete pães), é uma profunda catequese que, sob a ótica da Doutrina, dialoga intensamente com a filosofia, especialmente no que tange às noções de Providência, Compaixão e a Relação entre o Material e o Espiritual.

O relato inicia-se com Jesus subindo a um monte (15,29) e sendo procurado por multidões que Lhe traziam seus enfermos para cura (15,30-31). Em seguida, vem o cerne do milagre: a compaixão de Jesus diante da necessidade física do povo (15,32: "Tenho compaixão desta multidão, porque já faz três dias que está comigo e não tem o que comer").

Este ato de compaixão é fundamentalmente ético. Remete ao conceito de virtude em Aristóteles, onde a excelência moral (a areté) é a prática do bem. Contudo, enquanto a ética aristotélica se foca na autorrealização do indivíduo através da razão, a Compaixão de Jesus é a manifestação da caridade (agápe), um princípio ético que transcende o mérito, focado no outro e enraizado na natureza divina. A virtude cristã (Caridade) aperfeiçoa a virtude filosófica (Justiça).

A Igreja vê a compaixão de Cristo como a face da Misericórdia Divina, um atributo de Deus que se manifesta na história. É o cumprimento da Lei Natural inscrita no coração humano, elevada à Lei Nova do Evangelho.

O diálogo entre Jesus e os discípulos revela a desproporção entre os recursos humanos ("Como encontraríamos, num deserto, pães suficientes para alimentar tanta gente?", 15,33) e o poder divino. O milagre é a intervenção de Deus na ordem material para revelar a Sua soberania.

O milagre desafia o Empirismo estrito e o Materialismo, correntes que limitam a realidade ao que é perceptível pelos sentidos ou explicável pela matéria. O ato de Jesus de criar a partir do quase nada remete à discussão metafísica sobre a Criação ex nihilo (do nada). Filósofos como Platão (com a distinção entre o mundo sensível e o mundo das Ideias) e, mais tarde, Tomás de Aquino, afirmam que o ser e a essência do mundo material dependem de um Princípio Supremo Transcendente. O milagre é a demonstração prática da Primazia do Ser Incriado (Deus) sobre o ser criado.

A multiplicação é entendida como um sinal (como na Filosofia da Religião), que aponta para uma realidade maior. Teologicamente, é a prefiguração da Eucaristia, o sacramento onde a substância do pão é transformada na substância do Corpo de Cristo (Transubstanciação). A ontologia do pão e do vinho é alterada pelo poder de Deus, confirmando que a realidade última é espiritual e não apenas material.

O texto finaliza com a distribuição e a coleta das sobras: sete cestos cheios de pedaços (15,37). A plenitude (fartura) e o fato de sobrar são cruciais.

 A sobra demonstra a Providência Divina de forma superabundante. Isso contrasta com filosofias que enfatizam a escassez ou a luta pela sobrevivência (p. ex., aspectos do Existencialismo ou o mero Darwinismo Social). A Providência, tal como discutida por filósofos medievais e incorporada por Leibniz (a ideia do melhor dos mundos possíveis), sugere um plano divino que garante não apenas o necessário, mas a plenitude (superabundância).

A plenitude do Reino de Deus (Escatologia) não é apenas suficiência, mas Graça Transbordante. A Igreja ensina que a Providência Divina não apenas sustenta o cosmos, mas também cuida de cada indivíduo com generosidade.

Em conclusão, Mateus 15,29-37 é um texto que, ao ser lido à luz da fé, interpela as correntes filosóficas que tentam aprisionar a realidade à razão estrita ou à matéria. O milagre é a síntese da Caridade (ética superior) e da Soberania Criadora (metafísica da transcendência), mostrando que a verdadeira vida (a Vida no Reino) é marcada pela Superabundância da Graça.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Jesus andando sobre as águas. Meditação Filosófica/Teológica sobre Mateus 14, 22-36

Senhor ensina-nos a rezar. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 11,1-4.

A porta estreita. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 13:22-30.