A Revelação aos Pequeninos. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 10,21-24
O trecho do Evangelho de Lucas (10,21-24), onde Jesus exulta no Espírito Santo e louva o Pai por ter revelado as "coisas" do Reino aos "pequeninos" e as escondido dos "sábios e inteligentes," oferece um campo fértil para uma reflexão teológica e filosófica. Esta passagem não representa uma condenação da inteligência ou da razão em si, mas sim da soberba intelectual e da autossuficiência que impedem o acesso à Verdade Divina.
A alegria de Jesus decorre da revelação do mistério de Deus aos que o mundo considera insignificantes – os pequeninos (népios em grego), ou seja, os humildes, os simples de coração. A perspectiva cristã ve na humildade não uma negação da razão, mas a condição moral e existencial para que a razão seja iluminada pela Graça e alcance a Verdade suprema (Deus).
O mistério central é a relação exclusiva entre o Pai e o Filho ("Ninguém conhece quem é o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece quem é o Pai, a não ser o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar"), estabelecendo Jesus como o único mediador e Revelador da divindade.
O contraste entre os "sábios e inteligentes" e os "pequeninos" ressoa com várias correntes filosóficas ao longo da história:
O Evangelho confronta a soberba intelectual que reduz a verdade apenas ao que é demonstrável pela razão humana autossuficiente.
Esta passagem pode ser vista como uma crítica preventiva a formas de Racionalismo e Empirismo radicais, especialmente aquelas que, na era moderna (p. ex., o Iluminismo ateu), elevam a razão humana a um tribunal supremo, negando qualquer Verdade que transcenda a experiência e a lógica estrita.
A Igreja, seguindo Santo Tomás de Aquino (tomismo), defende a harmonia entre Fé e Razão (Fides et Ratio). A razão é um dom de Deus, mas quando se fecha sobre si mesma, ela se torna o "sábio e inteligente" do Evangelho, incapaz de acolher o dom da Revelação. A crítica de Jesus não é à capacidade de raciocinar, mas à atitude de orgulho que a acompanha.
A Filosofia Moral Clássica (p. ex., Aristóteles) busca a virtude como caminho para a Eudaimonia (a vida boa, a felicidade). Embora a humildade não seja uma virtude cardeal clássica, o Evangelho a estabelece como a virtude epistemológica fundamental para o conhecimento de Deus.
Para Santo Agostinho, a humildade é o pilar da vida cristã e o caminho para a verdade. O "pequenino" é aquele que, como em Agostinho, reconhece a sua limitação e a necessidade de auxílio divino (Gratiæ), superando a presunção estoica de autarquia absoluta do sábio.
Filosoficamente, a passagem reafirma a contingência do ser humano e a transcendência da Verdade divina. O conhecimento de Deus não é primariamente uma conquista metodológica ou intelectual (o que os "sábios" buscam), mas uma dádiva (Graça).
O Voluntarismo Divino está implícito: "Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado". Isso remete à Soberania Absoluta de Deus — a Verdade é revelada segundo o Seu beneplácito, não por um mérito humano.
Os "pequeninos" são aqueles que demonstram a reta disposição (humildade), que é a única chave hermenêutica capaz de decifrar o mistério do Reino.
Em suma, Lucas 10,21-24 é um convite filosófico-teológico à metanoia intelectual – a conversão da mente –, reconhecendo que, para acessar a Verdade mais profunda (Deus), é preciso despojar-se da arrogância do conhecimento mundano e assumir a simplicidade receptiva que caracteriza a verdadeira sabedoria teologal.
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