A Arquitetura da Fé e da Prática. Meditação Filosófica/Teológica de Mateus 7,21.24-27

O trecho do Evangelho de Mateus 7,21.24-27, que encerra o Sermão da Montanha, apresenta a famosa Parábola dos Dois Construtores (o homem prudente sobre a rocha e o insensato sobre a areia), precedida pela advertência sobre a ineficácia das palavras sem obras. Esta passagem é crucial para a Doutrina e oferece um rico diálogo com a Filosofia, especialmente nas áreas de Ética, Epistemologia (Teoria do Conhecimento) e Metafísica (Fundamentos da Realidade).

Jesus afirma categoricamente: "Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor', entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus."

 Esta é uma poderosa declaração pragmática e ética. Confronta o Verbalismo e o Formalismo religioso, estabelecendo a ação como o critério de verdade da fé. A fé que não se traduz em prática (vontade do Pai) é considerada vazia.

Isto dialoga com o Pragmatismo filosófico (embora em um sentido teológico, não puramente secular), que define a verdade pela sua eficácia e pelas suas consequências práticas.

No campo da Ética, contrasta com a visão deontológica puramente formalista (como a de Kant), que se concentra no dever pelo dever. O Cristianismo exige o ato virtuoso que brota do amor e do reconhecimento da vontade divina, unindo a intenção (a fé) à consequência (a obra).

A Igreja, em sua doutrina, sempre enfatizou a necessidade das obras (Caridade e Mandamentos) como fruto e evidência da fé (cf. Tiago 2,17). Não se trata de mera legalidade, mas da conformação da vontade humana à vontade de Deus, constituindo a Justificação que transforma o ser por dentro.

A Parábola dos Dois Construtores oferece uma analogia fundamental: Ouvir as palavras de Jesus e praticá-las é construir a vida sobre a Rocha; ouvir e não praticar é construir sobre a Areia. O teste é a Tribulação ("a chuva, a enxurrada e os ventos").

 A Rocha simboliza o Fundamento Inabalável da Realidade, a Verdade Objetiva. Na Filosofia Perene (especialmente o Tomismo), a Palavra de Deus e a Lei Eterna são a Fonte de Todo Ser e de Toda Ordem. Construir sobre a Rocha significa alinhar a existência (o ser do indivíduo) com o Ser Absoluto (Deus).

O conhecimento verdadeiro (epistemologia) não é apenas intelectual, mas exige a obediência prática para ser eficaz e salvífico. É a verdade vivida.

A Areia pode representar as filosofias e ideologias que são relativas, mutáveis ou puramente subjetivas – o Relativismo e o Subjetivismo. Estas correntes, ao negarem um fundamento objetivo e transcendente para a moral e a verdade, parecem sólidas em tempos de calma, mas colapsam diante do sofrimento e das crises existenciais (as "tempestades").

O Evangelho de Mateus 7,21.24-27 é uma síntese cristã que exige a unidade indissolúvel entre o conhecimento (o ouvir) e a ação (o praticar). A verdadeira sabedoria não é apenas ter a teoria correta sobre Deus, mas agir de acordo com essa teoria. O texto eleva a obediência prática à categoria de Critério de Solidez Existencial e Espiritual. A lição final é que a vida virtuosa (ética) é a única base segura (metafísica) para enfrentar a contingência e o sofrimento do mundo.

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