O Labirinto do Outro: Correção, Palavra e Presença. Reflexão Filosófica/Teológica de Mateus 18,15-20
Dostoiévski escreveu em Os Irmãos Karamazov que o inferno é a incapacidade de amar. Mas a vida comunitária nos revela uma nuance talvez mais cotidiana e incômoda: o inferno, muitas vezes, é a incapacidade de conversar. Quando o texto do Evangelho de Mateus nos apresenta um roteiro para a reconciliação — o irmão que peca, a conversa a sós, as testemunhas, a comunidade —, ele não está apenas redigindo um regulamento jurídico para a Igreja nascente. Está nos entregando uma autópsia da fragilidade humana e um remédio contra o nosso narcisismo.
O ato de ir até o outro "em particular, a sós contigo" é de uma exigência descomunal. A reação instintiva da psique ferida é o ressentimento ou a exposição pública. A raiva nos impele a buscar aliados imediatos, espalhando a falta do outro como quem busca validação para a própria dor. Ao prescrever o diálogo a sós, Jesus força a quebra do mecanismo do tribunal do júri imaginário. Exige o confronto direto com a alteridade. Olhar no olho daquele que nos feriu exige retirar as armaduras do ego e suportar a vulnerabilidade da escuta.
Este primeiro passo é um resgate da palavra ética, tal como pensava Emmanuel Levinas. O rosto do outro me interpela e me proíbe de transformá-lo em um mero objeto de meu julgamento. Quando fofocamos ou expomos o erro de alguém, desumanizamos essa pessoa, reduzindo-a ao seu fracasso. O diálogo privado reabilita a dignidade do sujeito; dá-lhe o direito de responder e a oportunidade de mudar de ideia.
Quando a conversa interpessoal falha e se convocam testemunhas, entra em cena a mediação simbólica. A psicologia social reconhece que, em momentos de impasse afetivo, a projeção e a cegueira emocional impedem a clareza. As duas ou três testemunhas não funcionam como juízes punitivos, mas como um espelho neutro, uma tentativa de resgatar a realidade dos fatos contra a distorção da mágoa.
Mas o que significa, afinal, tratar aquele que recusa todas as instâncias como "pagão ou pecador público"? A leitura apressada enxerga aí uma autorização para o descarte ou a excomunhão vingativa. Contudo, na perspectiva bíblica e psicanalítica, o ato de desligar e impor um limite é o reconhecimento radical da alteridade e da liberdade humana. Ninguém pode ser salvo ou curado contra a própria vontade. O limite é estruturante: quando o diálogo se esgota, a separação não é punição, mas a constatação dolorosa de um fato. E vale lembrar como o próprio Mestre tratava os pagãos e publicanos: não com desprezo, mas com uma porta sempre aberta para o recomeço.
Por fim, o texto deságua em uma promessa de presença: "Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí". Existe aqui um insight profundo sobre a constituição do humano. Não nos tornamos plenos no isolamento. A presença do divino ou do sentido transcendente da existência não se revela no solipsismo de uma mente fechada em si mesma, mas na fenda que se abre na intersubjetividade.
Estar de acordo, concordar (symphonein, no grego original, de onde vem a palavra simfonia), não significa uniformidade de pensamento, mas a capacidade de fazer soar juntas notas diferentes. Quando duas pessoas superam o ruído do próprio orgulho para buscar a verdade e a paz, o sagrado deixa de ser um conceito abstrato e passa a habitar o espaço entre elas.
Bibliografia
Buber, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Editora Perspectiva, 2012.
Levinas, Emmanuel. Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições 70, 2000.
Ricoeur, Paul. O Si-Mesmo como um Outro. Campinas: Papirus, 1991.
Freud, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização (1930). São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
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