O Traje da Presença: Uma Crônica sobre o Convite, a Indiferença e o Sabor da Gratidão. Meditação Filosófica/Teológica do 28º Domingo do Tempo Comum Ano A

Entre a pressa das avenidas e o barulho incessante das nossas notificações, a liturgia deste 28º Domingo do Tempo Comum nos lança uma provocação incômoda, mas profundamente acolhedora. A parábola do banquete nupcial conta a história de um rei que prepara uma grande festa para o casamento do seu filho, mas se depara com a recusa fria e indiferente dos primeiros convidados — homens e mulheres absorvidos demais por seus negócios, afazeres e compromissos cotidianos.

A festa de casamento é a imagem mais poética da aliança entre o Criador e a humanidade: uma promessa de comunhão, mesa farta e alegria sem fim. No entanto, ao dizerem “não”, aqueles homens revelam a trágica liberdade humana de fechar a porta ao amor. Escolhem a lógica da produção e do acúmulo, transformando a própria existência em uma mera transação comercial. Esquecem-se de que a vida não é um bem que se conquista em isolamento, mas um presente recebido.

É diante desse deserto de respostas que o texto bíblico opera sua grande virada. O rei ordena aos seus servos que saiam pelas encruzilhadas das estradas, o termo grego diexodoi, que evoca os caminhos abertos e o ponto de encontro com as periferias e tragam para a festa todos os que encontrarem pelo caminho, sem exceção.

Aqui, a teologia e a filosofia da alteridade se abraçam para nos ensinar sobre a nobreza da amizade, da solidariedade e do socorro mútuo. Ao chamar "bons e maus", o convite rompe o monopólio do sagrado e desfaz a ilusão do mérito próprio. Ninguém chega à mesa por autossuficiência. Nas margens da vida, quem reconhece a própria vulnerabilidade compreende o valor inestimável de uma mão estendida.

O olhar filosófico de Gabriel Marcel, ao conceber a fidelidade criativa e a disponibilidade existencial (disponibilité), nos lembra que a verdadeira amizade é uma abertura do ser que acolhe o outro sem exigências. Aristóteles, em sua reflexão clássica sobre a amizade perfeita (philia), já ensinava que os verdadeiros amigos não se unem por mero interesse ou prazer, mas pelo desejo sincero do bem do outro. Além disso, a visão de Viktor Frankl sobre a busca de sentido ilumina este cenário: o ser humano só se realiza plenamente na autotranscendência, ou seja, na capacidade de se doar a uma causa ou a uma pessoa por amor. A amizade sincera e a ajuda mútua são pontes que nos resgatam do isolamento, lembrando-nos de que a nossa dignidade desabrocha no cuidado recíproco.

Contudo, a parábola reserva uma última e enigmática cena: a figura do homem expulso por não usar o "traje de festa". Longe de ser um rigor elitista, o traje representa a atitude do coração. É a veste da gratidão.

Entrar no banquete sem o traje festivo é o equivalente a receber o amparo de um amigo, a ajuda no momento da dor ou a graça de um novo recomeço, e responder com frieza, vaidade ou soberba. Na era da "presença ausente" — em que os corpos compartilham o mesmo espaço, mas permanecem distantes e desconectados —, o convidado sem vestes representa quem aceita os benefícios da relação, mas recusa o compromisso do afeto, do reconhecimento e da reciprocidade. Como nos alerta Immanuel Kant, a ingratidão não é apenas uma falha de cortesia, mas um vício que corrói os laços da humanidade, pois fecha as portas para o reconhecimento do bem recebido. Quem não cultiva a gratidão impede a si mesmo de saborear a festa, pois a ingratidão endurece o olhar e empobrece a alma.

O banquete do Reino continua posto nas curvas do nosso caminho: na escuta atenta, na mão estendida que ampara a queda, no pão partilhado e na celebração sincera das amizades que nos sustentam. A provocação deste domingo não é apenas saber se fomos chamados — pois todos fomos —, mas se temos a humilde coragem de despir a nossa autossuficiência, vestir o traje da gratidão e reconhecer, com alegria, que a vida só é plenamente humana quando aprendemos a caminhar, servir e festejar juntos.

Diante do corre-corre da sua semana, a quem você precisa demonstrar gratidão hoje?

Bibliografia e Referências

  BÍBLIA DE JERUSALÉM. Tradução do texto original. São Paulo: Paulus, 2002. (Evangelho segundo Mateus 22, 1-14).

  ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livros VIII e IX (Da Amizade). Tradução de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora UnB, 2001.

 FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido: Um psicólogo no campo de concentração. Tradução de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. Petrópolis: Vozes, 2008.

  KANT, Immanuel. A Metafísica da Moral. Parte II: Doutrina da Virtudade. Tradução de José Lamego. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.

  LÉVINAS, Emmanuel. Totalidade e Infinito. Tradução de José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 2000.

 MARCEL, Gabriel. Être et Avoir (Ser e Ter). Paris: Aubier, 1935.

  RICOEUR, Paul. O Si-Mesmo como um Outro. Tradução de Lucy Moreira. Campinas: Papirus, 1991.


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