Dia 2: A Febre do Infinito (A Ganância)
Se a soberba nos faz olhar para o céu e nos julgar deuses, a ganância nos faz olhar para a terra e querer sermos donos de cada centímetro dela. Na teologia tradicional, chamam-na de avareza; na mesa do mercado financeiro, chamam de "meta de crescimento". Mude o nome, mude o século, mas a febre continua a mesma.
Há uma sutil diferença entre a ambição e a ganância. A ambição quer construir; a ganância quer apenas possuir. E o drama da posse é que ela é uma equação matemática fadada ao fracasso. O ganancioso é o único sujeito capaz de morrer de sede diante de um rio, simplesmente porque não consegue engolir a água toda de uma vez.
Se Karl Marx estivesse vivo hoje, tomando um café conosco na redação deste blogger, ele daria uma risada irônica. Ele nos lembraria que o capitalismo moderno transformou o pecado da ganância em uma virtude cívica. Fomos convencidos de que acumular não é apenas um direito, mas um dever moral. "Consuma, acumule, expanda", dizem os telões da Times Square e os relatórios trimestrais das grandes corporações. O problema sociológico é que, nessa engrenagem, as pessoas passam a ser tratadas como coisas, e as coisas passam a ser tratadas como deuses.
Na geopolítica, essa febre desenha as fronteiras do mundo com linhas de sangue e petróleo. A história da colonização, das guerras por recursos e da exploração do Sul Global não é uma história de ideologias; é a história da ganância com um exército na retaguarda. Quando uma potência decide que o minério do vizinho ou a água da floresta tropical lhe pertencem por "direito de mercado", a ética internacional é a primeira que vai para a guilhotina.
O paradoxo mais cruel da ganância globalizada é que ela é insustentável por definição física. Vivemos em um planeta com recursos finitos, mas operamos sob uma lógica econômica que exige crescimento infinito. É o equivalente a tentar enfiar o universo inteiro dentro de um cofre. O resultado? O colapso do clima, a exaustão das terras e uma desigualdade tão abissal que o topo da pirâmide já não consegue enxergar a base sem sentir vertigem.
No fundo, a ganância é a filha legítima do medo. O ganancioso acumula porque tem pavor da própria fragilidade, pavor do amanhã, pavor da escassez. Ele tenta preencher o vazio existencial com tijolos, ações e ouro, esquecendo-se de que o caixão não tem gavetas.
Medimos a vida pelo peso do metal,contamos os dias em barras de ouro, e cercamos a terra com arame farpado.
Mas a terra, que é velha e paciente, sabe que o dono é apenas um inquilino que logo devolverá suas posses ao pó. No fim do banquete, a terra sempre engole a mesa.
Se a soberba nos cega no topo do mundo, a ganância nos condena a uma fome que nenhum banquete do mundo é capaz de saciar. Acumulamos tanto que, no fim, viramos apenas os guardas da nossa própria prisão.
Passamos pela cabeça (Soberba) e pelas mãos (Ganância). Para onde vamos amanhã. O que acontece quando o desejo do outro nos corrói por dentro?
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