A Sintaxe do Absoluto: O Amor como Medida, Vínculo e Razão de Ser. Meditação Filosófica/Teológica do 30º Domingo do Tempo Comum ano A
Há momentos em que a existência exige um gesto de pausa e retificação. Quando o ruído da pressa nos faz equivocar os caminhos, o exercício da humildade nos devolve à essencialidade da palavra. No Evangelho deste 30º Domingo do Tempo Comum, a provocação central da fé e do pensamento humano não está na erudição estéril dos doutores da lei, mas na capacidade de condensar toda a complexidade da vida em uma única e radical direção: o amor.
Interpelado pelos fariseus sobre qual seria o maior de todos os preceitos, Jesus opera uma síntese revolucionária. Ele não acrescenta uma norma jurídica ao extenso e complexo catálogo religioso da época; em vez disso, integra e ressignifica a Tradição. Ao unir o Shema Israel ao imperativo do Levítico, Ele declara: "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas."
Do ponto de vista filosófico e antropomórfico, essa formulação desmantela qualquer tentativa de cindir a realidade entre o sacro e o profano, o teórico e o prático. Amar a Deus de todo o entendimento (dianoia) convoca a totalidade da inteligência humana, a faculdade crítica e a busca apaixonada pela verdade, recusando o dogmatismo cego ou o fideísmo ingênuo. Como bem assinalou Paul Ricoeur na sua análise da hermenêutica do sujeito, a consciência do eu só se constrói e ganha densidade moral no atrito e no diálogo constante com o outro.
Neste horizonte, o imperativo de amar o próximo "como a ti mesmo" estabelece a verdadeira geometria da alteridade. Na filosofia contemporânea de Emmanuel Levinas, a responsabilidade pelo Outro não é um adendo opcional à existência, mas a própria estrutura fundamental da nossa humanidade. O rosto vulnerável do próximo não é um obstáculo à nossa liberdade, mas o tribunal ético onde a nossa transcendência é testada. Dizer que o segundo mandamento é "semelhante" ao primeiro significa que não existe amor legítimo ao Absoluto que contorne, ignore ou fira a dignidade do ser humano concreto.
O mandamento do amor opera, assim, como uma crítica radical ao egoísmo ontológico que caracteriza o individualismo contemporâneo. Em uma época em que o saber é muitas vezes instrumentalizado para o exercício do poder ou da divisão, a síntese evangélica nos lembra que o conhecimento e as estruturas morais só encontram o seu verdadeiro cumprimento quando se traduzem em solidariedade, justiça e cuidado mútuo.
Ao percorrermos a jornada da vida, seremos medidos não pela quantidade de teorias que acumulamos ou pelas certezas formais que sustentamos, mas pela profundidade e pela verdade com que soubermos amar — a Deus, ao próximo e à própria vocação humana.
Referências Bibliográficas
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002. (Evangelho segundo Mateus, 22, 34-40).
BOFF, Leonardo. Saber Cuidar: Ética do Humano - Compaixão pela Terra. Petrópolis: Vozes, 1999.
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 2007.
LEVINAS, Emmanuel. Entre Nós: Ensaios sobre a Alteridade. Tradução de Pergentino S. Herrmann. Petrópolis: Vozes, 1997.
RICOEUR, Paul. O Si-Mesmo como um Outro. Tradução de Lucy Moreira. Campinas: Papirus, 1991.
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