Dia 5: O Mercado do Desejo (A Luxúria)
Se a ira explode em fogo, a luxúria consome em chama branda. Mas não se engane: o prejuízo é o mesmo. No senso comum, costuma-se limitar a luxúria aos lençóis e aos excessos da carne. Que ingenuidade. Na crônica da vida pública, a luxúria é algo muito mais vasto, sofisticado e perigoso: é a compulsão por consumir o corpo, a alma e a atenção do outro até que não reste nada além de um osso roído.
Se a teologia a via como o desvio da castidade, a sociologia contemporânea a enxerga como a estética perfeita do hipercapitalismo. O sociólogo Zygmunt Bauman falava dos "amores líquidos", mas poderíamos ir além: vivemos na era dos afetos descartáveis. A luxúria é a mercantilização do desejo. É o gesto compulsivo de deslizar a tela do celular para o lado — o famoso swipe —, onde seres humanos são catalogados, apreciados por três segundos e descartados em seguida como embalagens de fast-food. O luxurioso moderno não busca a conexão; busca o estímulo contínuo para fugir do tédio de si mesmo.
Na filosofia política, a luxúria veste a roupa de gala da "sociedade do espetáculo", conceituada por Guy Debord. O poder aprendeu que a melhor forma de controlar uma população não é apenas pelo medo (como faz a ira) ou pela opressão, mas pela sedução anestésica. Pão e circo? Isso é coisa do passado. Hoje oferecemos telas brilhantes, dopamina barata, entretenimento sensorial ininterrupto e a promessa de prazeres sem consequência. Uma sociedade entorpecida pela busca hedonista de satisfação imediata é uma sociedade incapaz de se indignar, de se organizar ou de questionar os rumos da polis.
E na geopolítica, onde se esconde a luxúria? Ela mora no turismo predatório que transforma culturas milenares em parques de diversão estéticos para o olhar ocidental, na exploração de corpos em redes globais de tráfico humano e no apetite insaciável da indústria cultural por fetishizar a pobreza ou a tragédia alheia. É o desejo de consumir a imagem do outro sem assumir qualquer responsabilidade pelo seu bem-estar.
A tragédia da luxúria é a sua profunda solidão. Ela promete a fusão com o outro, mas entrega apenas o reflexo do próprio ego no corpo alheio. É a fome de pele que termina no vazio do abraço.
Buscamos no corpo do outro o mapa de uma ilha, mas encontramos apenas a miragem da nossa própria sede.
Consumimos a pele, a luz, o riso fugaz, e no fim da festa, nos lençóis do mercado, descobrimos que o prazer que não cria raízes é apenas uma anestesia com prazo de validade.
Quando o desejo se descola do afeto e o outro vira mero objeto de uso, a sociedade perde a sua capacidade de cuidado. Resta-nos um mundo cheio de corpos hiperconectados e corações em isolamento absoluto.
Bauman, Zygmunt. Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
Debord, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
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