Fariseus II. Meditação Filosófica/Teológica de Mt 23,23-26 e a 1 carta de Paulo aos Tessalonicenses.

Caro leitor

É notável como textos tão antigos, como a Primeira Carta de Paulo aos Tessalonicenses e o Evangelho de Mateus, podem ser tão pertinentes para os nossos estudos e de como pensar o nosso cotidiano, servindo como uma base rica para a discussão de correntes filosóficas e conceitos psicológicos essenciais.

Na carta de Paulo aos Tessalonicenses (1Ts 2,1-8), encontramos um modelo de ação moral que ecoa o ideal da ética da virtude. No entanto, ele vai além, enfatizando a autenticidade. Paulo não age por vanglória ou para agradar aos outros, mas com uma intenção pura e sincera, "examinado por Deus". Essa abordagem se alinha com o imperativo categórico de Kant, que postula a necessidade de agir a partir de uma máxima que possa ser universalizada, não como um meio para um fim, mas como um fim em si mesma.

A psicologia humanista, com pensadores como Carl Rogers, também ressoa com essa ideia. O apóstolo se apresenta como alguém em busca de congruência, uma correspondência entre o que ele sente, o que ele pensa e o que ele faz. Sua ação não é um mero reflexo de um dever externo, mas uma manifestação de um "eu" genuíno. A metáfora de uma mãe que "acaricia os seus filhos" remete a uma ética do cuidado, um tema discutido por filósofas como Carol Gilligan, destacando a importância da responsabilidade e do vínculo nas relações humanas.

O Evangelho (Mt 23,23-26) nos apresenta a crítica de Jesus aos fariseus. Essa passagem é um ataque direto ao formalismo ético, que prioriza a adesão externa a regras em detrimento da substância moral. Os fariseus se atêm a minúcias da lei ("pagais o dízimo da hortelã, da erva-doce e do cominho") enquanto negligenciam o que realmente importa: a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Essa atitude é um exemplo clássico do que a psicanálise de Freud chamaria de uma formação reativa, uma manifestação externa que tenta compensar um conflito interno. O ato de limpar o "copo e o prato" por fora, enquanto o interior está cheio de "roubo e cobiça", é uma metáfora poderosa para a hipocrisia, que, do ponto de vista psicológico, é uma profunda dissonância cognitiva. A pessoa sabe que seus atos e intenções não estão alinhados, e isso gera um conflito interno que pode levar a mecanismos de defesa.

Jesus propõe uma ética da interioridade, um conceito que pode ser comparado ao ideal do estoicismo, que busca a virtude não por meio de rituais externos, mas através de um esforço de transformação interna, de um cultivo da virtude.

As duas leituras, juntas, nos oferecem uma rica síntese. Elas nos desafiam a ir além das aparências e a buscar uma coerência entre o nosso mundo interior e o nosso mundo exterior. A verdadeira ação ética, conforme demonstrada por Paulo e ensinada por Jesus, não é um conjunto de atos isolados, mas a expressão de um caráter íntegro.

Como pensadores inquietos, somos chamados a refletir sobre essa lição. Nossas teorias e práticas devem sempre buscar a verdade e a autenticidade, seja na análise das ações humanas, seja no nosso próprio viver.

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