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A mostrar mensagens de setembro, 2025

Jesus se dirige a Jerusalém.. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 9,51-56

 O trecho do Evangelho de Lucas 9,51-56 é um marco teológico, ético e psicológico que inicia a jornada final de Jesus a Jerusalém. A narrativa se concentra na firmeza de Jesus, na rejeição dos samaritanos e na reação impulsiva dos Seus discípulos, oferecendo profundas lições.   A "firme decisão" (em grego, uma expressão que denota determinação inabalável) marca o início da Anábase (subida) de Jesus para a consumação de Sua Missão Pascal. Jesus, sabendo que seria "levado ao céu" pela Paixão, adota um modelo de obediência radical à Vontade do Pai. A recusa dos samaritanos (motivada por antigos preconceitos contra os judeus que iam a Jerusalém) é um obstáculo que Jesus não combate com violência, ensinando que o caminho da Salvação é de inclusão e superação de divisões.    A recusa samaritana é um exercício do Livre-Arbítrio: a liberdade de rejeitar a Verdade é respeitada, mostrando que a adesão a Deus não é forçada. No entanto, a lição mais profunda reside na ética da ...

O encontro de Natanael e Jesus. Meditação Filosófica/Teológica de João 1, 47-51.

O Encontro Sob a Figueira, João 1,47-51, e o diálogo entre Jesus e Natanael (que muitos identificam como Bartolomeu) é um estudo de caso sobre a autenticidade e a revelação. A narrativa se desenrola em três atos: a saudação de Jesus, o colapso da defesa de Natanael e a promessa messiânica. A saudação de Jesus a Natanael — "Eis um verdadeiro israelita, no qual não há falsidade" — é o ponto de partida para todas as interpretações. Esta frase estabelece a onisciência de Jesus. Ele não apenas conhece o passado de Natanael, mas também sua pureza de intenção e sinceridade de coração. Natanael é o israelita que vive a Lei com integridade, um ideal de devoção que Jesus reconhece e louva. A prova disso vem com a frase "Eu te vi quando estavas debaixo da figueira". Tradicionalmente, a figueira simboliza um lugar de oração, meditação na Lei e paz. Ao citar este momento íntimo e secreto, Jesus revela seu poder divino, que transcende o conhecimento humano, chocando Natanael e pr...

Parábola do Rico e Lázaro. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 16,19-31.

Gostaria de apresentar uma reflexão profunda sobre a Parábola do Rico e Lázaro, Lucas 16,19-31. Mais do que uma história moral, este Evangelho nos oferece uma poderosa lição e levanta questões essenciais sobre a justiça, a responsabilidade e o destino final da alma. Jesus dirige esta parábola aos fariseus, que eram "amantes do dinheiro" (Lc 16,14). Ele estabelece um contraste dramático e intencional: O Homem Rico (Epulão): Vive em luxo extremo ("vestia-se de púrpura e linho fino e se banqueteava esplendidamente todos os dias"). Seu pecado não é ser rico, mas sua indiferença radical ao sofrimento alheio. Seu bem-estar é uma prisão autoimposta, fechando seus olhos para a realidade. Lázaro (O Pobre): O único personagem de uma parábola a ser nomeado por Jesus, significando "Deus ajuda". Ele jaz à porta do rico, coberto de chagas e desejando as migalhas. Lázaro representa o pobre crucificado, a face de Cristo que o rico ignorou. O ponto-chave é a porta. O Rico ...

Segundo anúncio da Paixão. Meditação Filosófica/ Teológica de Lucas 9,43b-45.

Refletindo sobre um trecho do Evangelho de Lucas 9,43b-45 que, em poucas palavras, revela um dos maiores mistérios da nossa fé e, ao mesmo tempo, um profundo desafio filosófico e teológico: a incompreensão diante da Paixão de Cristo. O texto começa logo após a admiração de todos diante das grandes obras de Jesus. É o auge da popularidade e do reconhecimento de seu poder divino. A multidão e os discípulos estão maravilhados com os milagres, a teofania da glória de Deus. No entanto, é nesse momento de glória que Jesus insere uma verdade dissonante e crucial, o segundo anúncio da Paixão. Identificamos neste anúncio a aceitação plena da vontade do Pai e a verdade da Encarnação. O Filho de Deus, que acabara de manifestar seu poder, agora anuncia seu caminho de esvaziamento total, de Kenosis. Este trecho confronta a nossa noção de poder e sucesso. Para o mundo, o poder reside na força e no triunfo; Jesus, porém, redefine o poder como a entrega, o sacrifício e o serviço. A lógica humana da as...

"Quem diz o povo que eu sou? Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 9,18-22

A passagem que hoje proclamamos do Evangelho de Lucas 9,18-22 é um pilar da fé cristã e um profundo desafio ao pensamento humano. Não é apenas um relato histórico; é o momento em que a identidade de Jesus é plenamente revelada, e Ele estabelece o caminho da Salvação pela Cruz. Este trecho representa a confissão de fé de Pedro e a imediata correção teológica de Jesus, que desmantela qualquer expectativa de um Messias político e glorioso. Jesus primeiro testa o conhecimento público "Quem diz o povo que eu sou?". As respostas são parciais (João Batista, Elias), refletindo o assombro da multidão diante do poder profético de Jesus. Mas Ele exige mais. A segunda pergunta, “E vós, quem dizeis que eu sou?”, é o convite à fé pessoal. Pedro, então, faz a grande profissão: "O Cristo de Deus." Cristo (Christós em grego, que significa Ungido), é o reconhecimento de Jesus como o Messias esperado, o enviado de Deus. Para a Igreja, esta é a rocha sobre a qual a fé se edifica. Imedi...

Perplexidade do rei Herodes com a fama de Jesus. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 9,7-9

 O trecho de Lucas 9,7-9, narra a perplexidade do rei Herodes com a fama de Jesus. A passagem, na sua essência, revela a dinâmica de como a Palavra de Deus se espalha e a forma como as pessoas, e até mesmo as autoridades, reagem a ela. A atitude de Herodes é emblemática. Ele ouve a fama de Jesus, ou seja, a proclamação da Palavra, mas não de forma direta. Em vez disso, a informação chega a ele através dos outros, do povo que discute quem seria Jesus — se João Batista que ressuscitou, Elias que reapareceu ou um dos antigos profetas. Essa situação demonstra que a proclamação do Evangelho não é limitada a um púlpito ou a um grupo seleto de pessoas. Ela se espalha através do testemunho de vida e da conversa informal, permeando todos os níveis da sociedade, inclusive os que detêm o poder. Herodes, o poder constituído, não é indiferente à mensagem. Ele se sente perturbado e busca ativamente entender quem é Jesus. O versículo 9, "João, eu o decapitei. Mas quem é este, de quem ouço falar ...

Jesus envia os 12 em missão. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 9,1-6

Nesta oportunidade, vamos mergulhar em um texto bíblico conhecido, Lucas 9,1-6, mas de uma maneira diferente. Sob a lente da filosofia e da linguagem. O texto começa com Jesus concedendo aos seus discípulos "poder" e "autoridade". A palavra grega para poder, neste contexto, é dýnamis. É a mesma raiz de onde vêm as nossas palavras "dinamismo" e "dinamite". Pense nisso: não é um poder estático, mas uma força explosiva, uma energia para transformar a realidade. Jesus não dá aos discípulos uma posição de honra, mas uma capacidade de agir. A segunda palavra é "autoridade", do grego exousía. Ela se refere ao direito de agir, à liberdade de fazer algo. A união de dýnamis e exousía é fundamental: Jesus não apenas dá a força (o poder), mas também a permissão e o direito de usá-la. Jesus instrui os discípulos a não levarem nada: "nem bordão, nem sacola, nem pão, nem dinheiro; nem duas túnicas". Essa é a parte mais radical e fascinante p...

Quem é minha mãe? Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 8,19-21

A passagem de Lucas 8,19-21, nos apresenta um cenário aparentemente simples, mas que esconde uma profunda subversão de valores. A mãe e os irmãos de Jesus o procuram, mas ele, ao ser informado, responde com uma frase que ressoa através dos séculos: "Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática". Essa declaração, que à primeira vista poderia soar como um desprezo aos laços de sangue, é, na verdade, uma redefinição radical do que significa ser humano e pertencer a uma comunidade. Percebemos que Jesus não está negando a família biológica, mas sim elevando a moralidade e a escolha individual a um patamar superior. A resposta de Jesus é um convite à autenticidade. Ele nos lembra que a nossa identidade não pode ser definida apenas pelas circunstâncias em que nascemos, mas é forjada por nossas escolhas. A "família" de Jesus não é um grupo de pessoas unidas pelo sangue, mas uma comunidade de indivíduos que, livremente, escolhem seguir ...

Parábola da lampada escondida. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 8,16-18

No Evangelho de Lucas 8,16-18 encontramos um significado profundo para a nossa vida de fé. A passagem começa com a imagem de uma lâmpada: "Ninguém, depois de acender uma lâmpada, a cobre com um vaso ou a põe debaixo da cama." A lâmpada é o Evangelho, a Palavra de Deus que recebemos. A luz que ela emite é a verdade de Cristo. Quando acolhemos essa luz em nossos corações, ela não pode ficar escondida. Não podemos guardá-la apenas para nós mesmos, como se fosse um tesouro secreto. O propósito da luz é iluminar, dissipar as trevas da ignorância, do medo e do desespero. Se a verdade de Cristo está em nós, ela precisa ser visível. Ela deve brilhar através das nossas ações, do nosso amor, da nossa compaixão e do nosso testemunho. Em seguida, Jesus nos dá uma garantia: "Pois nada há de oculto que não venha a ser revelado, e nada há de secreto que não venha a ser conhecido e manifestado." Este é um lembrete poderoso de que a verdade sempre prevalece. Aquilo que é justo e ver...

O administrador infiel. Meditação Filosófica/ Teológica de Lucas 16:1-13.

A parábola do administrador infiel, encontrada em Lucas 16:1-13, à primeira vista, este texto pode parecer um quebra-cabeça. Por que Jesus elogia um homem que age de forma desonesta? No entanto, para desvendarmos seu verdadeiro significado, precisamos ir além da superfície e usar as lentes da filosofia. A filosofia moral nos ensina que uma ação virtuosa é aquela que está em harmonia com princípios como a justiça e a honestidade. Mas, na parábola, Jesus nos apresenta uma distinção crucial. O administrador não é elogiado por sua moralidade, mas por sua sagacidade. Ele demonstra uma forma de inteligência prática, chamada na filosofia de prudência ou phronesis, a capacidade de usar a razão para agir de forma eficaz em uma situação. O administrador é um pragmático. Ele enxerga o perigo de perder tudo e, com uma astúcia impressionante, age para garantir seu futuro. Ele entende as regras do "jogo" terreno e as utiliza a seu favor. Jesus, ao elogiar essa sagacidade, não está endossan...

Parábola do Semeador. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 8:4-15

A parábola de Jesus, contada em Lucas 8: 4-15, é uma história que parece falar apenas de agricultura. No entanto, ela é uma das mais ricas alegorias sobre a condição humana e a nossa relação com a mensagem divina. O semeador lança a semente — a Palavra de Deus — de forma universal, sem distinção. A generosidade do semeador, que não escolhe o terreno, já nos mostra que a mensagem do Evangelho é para todos. Mas a parábola não é sobre o semeador; é sobre o solo. Cada tipo de terreno representa uma maneira diferente pela qual recebemos ou rejeitamos a Palavra. A semente que cai à beira do caminho representa o coração endurecido, que ouve a mensagem, mas não a entende. É a pessoa que, por diversas razões, não permite que a Palavra penetre. A vida, com suas rotinas e preocupações, transformou o coração em um solo compactado, onde nada pode germinar. Já a semente que cai sobre a rocha nos fala de um entusiasmo inicial que logo se esvai. É o coração que recebe a mensagem com alegria, mas sem p...

Jesus e as mulheres. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 8,1-3.

O Evangelho de Lucas 8,1-3 com o relato de Jesus e as mulheres em sua missão, nos oferece uma rica oportunidade de reflexão, que podemos aprofundar, estabelecendo um paralelo com a corrente filosófica do existencialismo. Embora seja anacrônico falar de existencialismo no tempo de Jesus, podemos enxergar no seu modo de agir e na resposta de seus seguidores princípios que ressoam com essa filosofia. A passagem nos diz que Maria Madalena, Joana e Susana, entre outras, seguiram Jesus depois de terem sido curadas de enfermidades e libertadas de "espíritos malignos". A filosofia existencialista, em especial com pensadores como Jean-Paul Sartre, defende que "a existência precede a essência", ou seja, o ser humano primeiro existe, se encontra no mundo, e depois, por suas escolhas, constrói sua própria essência. Aqui, o paralelo é notável. Essas mulheres, libertadas de suas aflições, não foram programadas para seguir Jesus. Elas exercem a sua liberdade radical e fazem a esco...

Casa do fariseu e a mulher pecadora. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 7,36-50

A cena de Lucas 7,36-50, tão rica em detalhes e implicações, convida-nos a um aprofundamento, tocando em questões de ética, conhecimento e a própria condição humana. O relato começa com um fariseu, Simão, que convida Jesus para um banquete. A palavra "fariseu" vem do hebraico perushim, que significa "separados". Essa separação não era apenas geográfica ou social, mas também uma marca da sua busca pela pureza ritual e pela estrita observância da Lei. Simão, portanto, age a partir de um lugar de convenção e rigor. A chegada da mulher, descrita como "pecadora", quebra o protocolo e a ordem estabelecida. O termo "pecador" (hamartolos em grego) vem de hamartia, que significa "errar o alvo". Essa falha não é apenas moral, mas existencial, um desvio da plenitude da vida. A ação dela - ungir os pés de Jesus com um perfume caríssimo e enxugá-los com seus cabelos - é um ato de subversão, que desafia a lógica de Simão. Simão, em seu íntimo, constr...

As crianças na praça. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 7:31-35

Podemos explorar as profundas camadas da passagem de Lucas 7:31-35, onde Jesus compara sua geração a crianças em uma praça, que não respondem nem ao choro fúnebre nem à alegria da flauta. A riqueza desse texto nos convida a refletir sobre a natureza humana, a comunicação e o julgamento. Analisando através de uma lente filosófica que questiona a existência do mal e a responsabilidade humana. Jesus aponta para a hipocrisia e a inação de sua geração, que rejeitou tanto João Batista (asceta e austero) quanto Ele próprio (alegre e acessível). Essa recusa em aceitar a mensagem, independentemente de sua forma, ecoa o conceito de má-fé de Jean-Paul Sartre. Para Sartre, a má-fé é uma auto-ilusão onde negamos nossa própria liberdade e responsabilidade, culpando as circunstâncias ou os outros por nossa inércia. A geração de Jesus, ao rejeitar o Evangelho sob pretextos superficiais, demonstra essa má-fé, evitando a responsabilidade de mudar e se arrepender. Os estoicos valorizavam a razão e a acei...

Ressurreição do filho da viuva de Naim. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 7, 11-17

Escrevo com a mente e o coração plenos, após uma profunda meditação sobre o Evangelho de Lucas 7, 11-17. A passagem que narra a ressurreição do filho da viúva de Naim é uma proclamação filosófica de peso, que ecoa através dos tempos e se conecta com diversas correntes de pensamento e conceitos etimológicos. À primeira vista, o texto nos apresenta uma cena de profunda dor: uma viúva que perde seu único filho. A palavra "viúva" vem do latim vidua, que significa "vazia" ou "privada". A dor não é apenas emocional; é a perda de sua linhagem, de sua segurança, de seu futuro. Essa viúva representa, na perspectiva existencialista, o absurdo da vida, a contingência do sofrimento sem causa aparente. A morte, inevitável e incompreensível, é o grande "Não" que a realidade nos impõe. Jesus, ao ver a cena, age por "compaixão" (splagchnizomai em grego, que significa "sentir nas entranhas"). Essa compaixão não é um sentimento passivo. É a exp...

Jesus conversa com Nicodemus. Meditação Filosófica/Teológica de João 3:13-17.

A passagem de João 3:13-17, que captura o cerne do diálogo entre Jesus e Nicodemos, convida-nos a uma reflexão que transcende o tempo e a religião. Não se trata de uma mera narrativa, mas de uma profunda proposição filosófica sobre a nossa condição, a natureza da realidade e o significado da salvação. Primeiramente, somos confrontados com uma tensão metafísica. A afirmação de Jesus de que "ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu" estabelece uma fronteira ontológica entre o domínio terreno e o celestial. Essa não é uma distinção geográfica, mas sim uma separação entre o que é visível e o que é o supra-sensível, o mundo do finito e o do infinito. Jesus se posiciona como a única ponte entre esses dois reinos, o que sugere que o conhecimento da realidade divina não é um feito da razão humana, mas uma graça revelada. Em outras palavras, a salvação não pode ser conquistada, mas apenas recebida, um dom que nos permite acessar uma verdade que está além do alcance de ...

Jesus na cruz. Meditação Filosófica/Teológica de João 19:25-27.

A passagem de João 19:25-27, na qual Jesus, na cruz, confia sua mãe, Maria, aos cuidados do discípulo amado, transcende um mero ato de compaixão filial para se tornar um evento que redefine a própria natureza da comunidade humana. O cenário da crucificação representa o ápice da absurdidade e da solidão humana, com Jesus enfrentando o abismo da morte em total desamparo. A ordem que Ele dá a João é uma resposta a esse desamparo, não com resignação, mas com um ato de responsabilidade ativa. Ao declarar "Eis aí a tua mãe" e "Eis aí o teu filho", Jesus não realiza apenas um arranjo prático; Ele constrói uma nova realidade social. Demonstra, assim, que a resposta ao desespero existencial não é a passividade, mas a criação de laços que mitigam a solidão e conferem sentido à vida, mesmo diante da finitude. É um ato de autenticidade, no qual, em meio ao sofrimento mais extremo, Ele se preocupa com o outro, redefinindo o que significa ser família. Sob a perspectiva da Ética d...

Conhece a arvore por seus frutos. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas, 43-49

A passagem do Evangelho de Lucas 6, 43-49, que discorre sobre a coerência entre o ser e o agir, oferece uma rica tapeçaria de significados. A metáfora da árvore e seus frutos é uma lição sobre a necessidade de que a bondade do coração se manifeste em ações concretas de amor e caridade. A fé não pode ser apenas uma crença professada, mas uma força viva que se traduz em obras. Da mesma forma, a imagem da casa construída sobre a rocha simboliza a solidez que a obediência aos ensinamentos de Cristo confere à vida do fiel, garantindo que ela resista às tribulações. A rocha, neste contexto, é o próprio Cristo e sua palavra, o alicerce inabalável da vida cristã. Filosoficamente, a passagem ecoa princípios de correntes que se debruçam sobre a ética e a ação humana. O aristotelismo, por exemplo, encontra um paralelo notável na ética das virtudes. Aristóteles defendia que o caráter moral de uma pessoa é formado por hábitos, e que a virtude não é um ato isolado, mas uma disposição constante para ...

Trave no Olho. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 6:39-42

O Evangelho de Lucas 6:39-42, nos apresenta uma lição sobre a hipocrisia e a imperativa necessidade de autoavaliação. Ao empregar três parábolas entrelaçadas—a do cego que conduz outro cego, a do discípulo e seu mestre, e a do cisco e da trave—Jesus nos convida a uma reflexão que transcende o mero ato de julgar. A parábola do cego encontra um notável paralelo no Racionalismo, uma corrente filosófica que eleva a razão (ratio) e o conhecimento (episteme) como vias para a verdade. O indivíduo "cego" que se atreve a conduzir o outro carece de luz (phos) do saber e, inevitavelmente, levará ambos à ruína. O ensinamento de Jesus nos lembra que o autoconhecimento (gnothi seauton), um preceito socrático, é o primeiro passo para o conhecimento de Deus, e a prudência (prudentia) exige que corrijamos em nós mesmos um erro maior antes de tentarmos corrigir uma falha menor no outro. De igual modo, a parábola do cisco e da trave ecoa os princípios da Ética das Virtudes, que se concentra no ...

Amar os inimigos. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 6,27-38.

Em Lucas 6,27-38, encontramos um desafio radical. Jesus nos apresenta aqui uma ética tão elevada que, à primeira vista, parece quase impossível de ser vivida. Para entender a profundidade dessa mensagem, precisamos olhar para ela por diferentes lentes. Para a teologia, este texto nos fala sobre a natureza de Deus. O mandamento central é “ágape”, o amor incondicional. Este não é o amor de atração (eros) ou de amizade (filia), mas o amor que se doa, que se estende até o inimigo. É um amor que não se baseia no mérito, mas na própria essência de Deus. A frase “Ele é bondoso até para com os ingratos e os maus” revela um Deus que não retribui o mal com o mal, mas responde ao ódio com amor. A religião nos ensina que essa capacidade de amar o inimigo não vem de nós mesmos. É um dom, uma "gratia" que Deus nos concede. É a ação de Deus em nós que nos capacita a ir além de nossas inclinações naturais de vingança e a praticar a caridade de forma superabundante. O Evangelho nos convida a ...

As bem aventuranças. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 6,20-26,

O Sermão da Planície, narrado em Lucas 6,20-26, oferece uma proposta radical de felicidade que desafia tanto a sabedoria mundana quanto as filosofias tradicionais. Ele funde a teologia da inversão de valores com a análise filosófica de uma nova ética, criando um chamado à transformação profunda. Jesus começa o sermão com uma série de bem-aventuranças que subvertem nossa compreensão de sucesso. De uma perspectiva, essa mensagem é dirigida aos anawim, os "pobres de Deus" que confiam unicamente na providência divina. Essa pobreza não é apenas material, mas uma atitude de espírito que se abre ao Reino de Deus. A análise filosófica complementa essa visão, enxergando uma crítica direta à ideia de que a felicidade (eudaimonia) reside no status social, na riqueza ou no prazer. Jesus propõe que a verdadeira felicidade é encontrada naquilo que o mundo despreza: a vulnerabilidade. Ao proclamar a bem-aventurança dos pobres, dos famintos e dos que choram, Ele estabelece uma nova ética que...

A parábola da torre. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 14:25-33

O trecho de Lucas 14:25-33 apresenta as exigências radicais do discipulado de Jesus. O texto aborda três pontos principais: a hierarquia de amores, a aceitação do sofrimento e o desprendimento total. O chamado para "odiar" a família (misein) não significa aversão, mas a prioridade absoluta de Jesus. O amor a Ele (agape) deve ser o telos (propósito) da vida, subvertendo a ordem natural do oikos (família). Observamos no texto uma metanoia, uma reorientação total do amor humano. Levar a cruz é a aceitação do pathos (sofrimento) de Cristo, uma participação em sua kénosis (esvaziamento de si). Ao contrário da filosofia grega que buscava evitar o sofrimento, o cristianismo o integra como um meio de purificação e redenção. A renúncia aos bens é uma praxis (prática) necessária para o discipulado. O desprendimento é um ato de liberdade, permitindo que a vida seja inteiramente dedicada à comunhão com o Reino de Deus. Em essência, a passagem é uma proclamação existencial de que a verdad...

Escolha dos 12 apóstolos. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 6:12-19.

A passagem de Lucas 6:12-19 descreve um momento crucial na vida de Jesus: a escolha dos doze apóstolos, a cura de muitos enfermos e o discurso que se segue, que é a base do Sermão da Planície. A teologia interpreta este evento não apenas como um relato histórico, mas como uma proclamação filosófica e existencial que ecoa termos e conceitos da filosofia grega. A passagem começa com Jesus subindo a um monte para orar durante a noite. Este ato de isolamento e introspeção é a base para a kénosis de Jesus, termo grego que significa o "esvaziamento de si". Na filosofia, a busca pela alétheia (verdade) e o distanciamento do mundo material são centrais. Aqui, Jesus se retira do mundo para se conectar com a verdade divina, preparando-se para um ato de doação. Ao escolher os doze apóstolos, Jesus estabelece um novo polis, ou "cidade-estado". A filosofia grega, especialmente em Platão e Aristóteles, via o polis como o local de realização humana, onde a eudaimonia (bem-estar, f...

Genealogia de Jesus e anúncio do nascimento. Meditação Filosófica/Teológica de Mateus 1,1-16.18-23

 A proclamação do Evangelho de Mateus 1,1-16.18-23 pode ser analisada como um texto que vai além do religioso, tocando em questões filosóficas, psicológicas, antropológicas e sociais. A narrativa não é apenas sobre eventos, mas sobre a essência da condição humana e a relação com o divino. A longa lista de nomes que compõe a genealogia de Jesus é um rico documento antropológico e filosófico. Ela não é um mero registro; é a construção de uma identidade. O texto argumenta que a identidade de Jesus não é isolada, mas está profundamente enraizada na história de um povo. Isso levanta a questão filosófica do determinismo histórico: até que ponto nossas vidas são moldadas pela nossa herança e passado? A inclusão de figuras controversas como Tamar e Rute, que não se encaixam no padrão social ideal, subverte a expectativa de uma linhagem "pura". Sociologicamente, isso desafia as noções de exclusão e pureza racial ou religiosa. Filosoficamente, sugere que o sagrado e o plano divino oper...

Jesus é Senhor do sábado. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 6,1-5

 A passagem de Lucas 6:1-5 não é apenas uma história; é um confronto filosófico sobre o significado da lei e o propósito da religião. O cerne da questão reside na tensão entre dois modelos de pensamento: A Visão Farisaica, Nomocêntrica, a lei é o centro do universo moral e religioso. A palavra grega "nomos" significa "lei", e sua visão pode ser descrita como nomocêntrica. Para eles, a obediência literal e inquestionável à lei, incluindo as tradições orais que a cercavam, era o caminho para a retidão e a honra a Deus. O sábado era sagrado por si mesmo, e qualquer "trabalho" (como colher grãos) o profanava. Nessa filosofia, o homem existe para a lei. Na visão de Jesus, Antropocêntrica e Agápica, Jesus subverte essa ordem. Sua filosofia pode ser descrita como antropocêntrica (do grego "anthropos", "homem") e agápica (do grego "ágape", "amor divino"). Para ele, a lei não é um fim em si mesma, mas uma ferramenta para prom...

Odre e remendos novos. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 5:33-39

A passagem de Lucas 5:33-39, com as parábolas do remendo novo e do vinho novo, é uma profunda reflexão filosófica sobre a natureza da mudança e a incompatibilidade entre o novo e o velho. Jesus não está apenas dando conselhos práticos, mas estabelecendo princípios que questionam nossas estruturas de pensamento e ação. As parábolas revelam uma ontologia da novidade. O "vinho novo" e o "remendo novo" representam uma realidade que é fundamentalmente distinta do que veio antes. Eles não podem ser simplesmente acomodados por estruturas pré-existentes, como a "roupa velha" e o "odre velho". A lição aqui é que certas transformações, para serem autênticas, exigem uma ruptura com o passado, e não apenas uma reforma. A rigidez do velho, que simboliza mentalidades e sistemas inflexíveis, é o que o leva à autodestruição, pois não pode conter a vitalidade e a expansão do novo. Jesus critica a ética do ritualismo cego dos fariseus, que se baseava no cumpriment...

A pesca milagrosa. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 5,1-11.

 A passagem de Lucas 5,1-11, que narra a pesca milagrosa é um dos episódios do Evangelho que oferecendo múltiplas camadas de interpretação. Podemos extrair da passagem verdades universais sobre a natureza humana, a relação entre fé e razão, e a transformação pessoal. O Fracasso e a Persistência: A situação inicial de Simão Pedro, que "não pescou nada durante toda a noite", simboliza o fracasso e a frustração humana diante do esforço sem recompensa. A razão e a experiência de pescador de Pedro sugerem que continuar é inútil. No entanto, o comando de Jesus questiona essa lógica. A "pesca milagrosa" representa a irrupção do inesperado, do transcendental, que subverte a ordem da experiência. Isso levanta a questão de se o conhecimento empírico é a única fonte de verdade ou se há um "além" que pode redefinir nossa realidade. A Conversão da Vontade e da Razão: O "sim" de Pedro à ordem de Jesus ("se é a tua palavra, lançarei as redes") é uma a...

A cura da sogra de Simão. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 4,38-44.

Escrevo estas linhas movido pela reflexão do Evangelho de Lucas 4,38-44, um texto que, à primeira vista, parece uma simples crônica de milagres. No entanto, ao aprofundarmos a leitura com os olhos da filosofia e da teologia, revelam-se mistérios profundos sobre a natureza de Cristo e a missão de sua Igreja. A narrativa inicia-se com a cura da sogra de Simão. A febre alta não é apenas um mal físico; na filosofia antiga, a doença era frequentemente vista como uma ruptura da harmonia, um desequilíbrio entre o corpo e o espírito. A ação de Jesus é um ato de restauração metafísica. Ele não apenas toca a carne, mas restabelece a ordem interior. O Logos, o Verbo que no princípio era Deus (cf. João 1,1), manifesta-se em um ato de autoridade que reordena a natureza humana, fragilizada pela Queda. A sogra de Simão, ao ser curada, imediatamente se levanta e serve. Este é o ponto crucial: a cura não é um fim em si mesma, mas uma potencialização para o serviço. A liberdade do corpo convalescente é ...

O endemoniado de Cafarnaum. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 4,31-37

Ao refletir sobre a passagem de Lucas 4,31-37, ela nos permite ir além do dogma e nos aprofundarmos nas questões que nos tornam humanos. Pensemos na natureza da autoridade. A filosofia questiona: de onde vem o poder de um mestre? Naquela época, os escribas tinham sua autoridade baseada no estudo e na tradição. Eles falavam citando outros, construindo seu argumento sobre o que já era conhecido. Jesus, no entanto, fala com uma autoridade intrínseca. Ele não se apoia em ninguém, sua palavra é a própria fonte do que Ele ensina. Isso nos leva a uma reflexão profunda sobre o conhecimento. Existe um tipo de conhecimento que não é aprendido, mas é inerente à própria natureza de quem o possui? A filosofia de Platão, por exemplo, sugere que há uma Verdade Absoluta que existe por si mesma. Jesus, nesse sentido, seria a manifestação dessa Verdade, uma autoridade que não é adquirida, mas é. A passagem também nos confronta com o problema do mal. A filosofia há muito tempo tenta entender a origem e a...

Jesus entra na sinagoga de Nazaré. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 4:16-30

Ao revisitar a cena em Lucas 4:16-30. Jesus entra na sinagoga de Nazaré e, ao ler o texto de Isaías, não está apenas citando uma profecia; ele está fazendo uma declaração ontológica sobre sua própria existência e propósito. A frase "O Espírito do Senhor está sobre mim" (Pneuma Kyriou ep' eme) não é um simples ato de inspiração, mas a manifestação de uma realidade transcendental na esfera da história humana. Ele é o ungido (Christos), o Messias, cujo ser se define por sua missão. A proclamação de Jesus é um grito pela liberdade. O termo "liberdade" é expresso por  apheseis, que significa tanto "perdão" quanto "libertação". O que ele propõe não é apenas a libertação de correntes físicas, mas uma libertação existencial do ser. A visão de Jesus é uma ética da alteridade, um conceito filosófico que nos força a ver o "outro" (o pobre, o cego, o oprimido) não como um objeto de caridade, mas como um sujeito cuja dignidade nos impõe uma resp...