Jesus entra na sinagoga de Nazaré. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 4:16-30

Ao revisitar a cena em Lucas 4:16-30. Jesus entra na sinagoga de Nazaré e, ao ler o texto de Isaías, não está apenas citando uma profecia; ele está fazendo uma declaração ontológica sobre sua própria existência e propósito. A frase "O Espírito do Senhor está sobre mim" (Pneuma Kyriou ep' eme) não é um simples ato de inspiração, mas a manifestação de uma realidade transcendental na esfera da história humana. Ele é o ungido (Christos), o Messias, cujo ser se define por sua missão.

A proclamação de Jesus é um grito pela liberdade. O termo "liberdade" é expresso por  apheseis, que significa tanto "perdão" quanto "libertação". O que ele propõe não é apenas a libertação de correntes físicas, mas uma libertação existencial do ser. A visão de Jesus é uma ética da alteridade, um conceito filosófico que nos força a ver o "outro" (o pobre, o cego, o oprimido) não como um objeto de caridade, mas como um sujeito cuja dignidade nos impõe uma responsabilidade moral. Essa é a essência do que o filósofo Emmanuel Lévinas chamaria de "revelação" através do rosto do outro.

A reação inicial dos nazarenos é de admiração. Eles ficam maravilhados com as "palavras de graça" (logois tēs charitos) que saem da sua boca. No entanto, a admiração se transforma em indignação quando a verdade de Jesus não corresponde às suas expectativas. O problema deles não é teológico, mas gnoseológico: eles não conseguem conciliar a verdade que lhes é apresentada com o conhecimento prévio que têm sobre Jesus, o filho do carpinteiro. Eles caem na armadela da falácia ad hominem, rejeitando a mensagem com base na identidade do mensageiro ("Não é este o filho de José?").

O conflito aqui é entre a verdade-revelada e a verdade-preconcebida. Jesus desafia a lógica deles, não por meio de um silogismo, mas por meio de uma revelação que transcende a razão humana. Ele usa os exemplos da viúva de Sarepta e de Naamã, o sírio, para demonstrar que a graça divina (charis) não se prende a fronteiras étnicas ou a dogmas. A salvação é universal, e essa universalidade é o que eles rejeitam. A multidão não consegue suportar a ideia de que Deus possa atuar fora de seus paradigmas. A fúria deles é a manifestação da negação da alteridade.

A rejeição de Jesus em sua própria cidade prefigura seu destino. Ele se torna o estrangeiro em sua própria terra. O termo grego para "profeta" é  prophētēs, que significa "aquele que fala em nome de Deus". Mas Jesus não é apenas um porta-voz; ele é a própria Palavra (logos) que se fez carne.

A tentativa de atirá-lo do penhasco simboliza o ato final da rejeição: a negação da existência daquela verdade. Eles não querem apenas silenciá-lo; querem eliminá-lo. No entanto, Jesus "passou pelo meio deles e seguiu seu caminho". Essa passagem não é apenas um milagre; é um ato de liberdade ontológica. Ele não pode ser contido pelas expectativas ou pela violência humana porque sua existência está além da compreensão e do controle deles.

Em última análise, Lucas 4:16-30 é um tratado filosófico sobre a natureza da verdade, da liberdade e da rejeição. Ele nos questiona: estamos dispostos a seguir a verdade, mesmo quando ela nos leva a lugares que não queremos ir, e nos obriga a reconhecer a dignidade de quem não esperávamos? A carta de Jesus a Nazaré continua a nos desafiar a abrir nossos corações e mentes para uma graça que não conhece limites.


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