Escolha dos 12 apóstolos. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 6:12-19.

A passagem de Lucas 6:12-19 descreve um momento crucial na vida de Jesus: a escolha dos doze apóstolos, a cura de muitos enfermos e o discurso que se segue, que é a base do Sermão da Planície. A teologia interpreta este evento não apenas como um relato histórico, mas como uma proclamação filosófica e existencial que ecoa termos e conceitos da filosofia grega.

A passagem começa com Jesus subindo a um monte para orar durante a noite. Este ato de isolamento e introspeção é a base para a kénosis de Jesus, termo grego que significa o "esvaziamento de si". Na filosofia, a busca pela alétheia (verdade) e o distanciamento do mundo material são centrais. Aqui, Jesus se retira do mundo para se conectar com a verdade divina, preparando-se para um ato de doação.

Ao escolher os doze apóstolos, Jesus estabelece um novo polis, ou "cidade-estado". A filosofia grega, especialmente em Platão e Aristóteles, via o polis como o local de realização humana, onde a eudaimonia (bem-estar, florescimento humano) poderia ser alcançada. Jesus, no entanto, subverte essa ideia. Seu polis não é uma estrutura política ou social baseada em hierarquias terrenas, mas uma comunidade de diakonia (serviço) e agape (amor incondicional). Os apóstolos, antes meros indivíduos, agora formam uma koinonia (comunhão), a base da futura Igreja, o novo polis de Cristo.

O texto continua com a cura de uma "grande multidão". A palavra grega dynamis ("poder" ou "força") é usada para descrever o poder que sai de Jesus para curar. Na filosofia grega, dynamis era frequentemente associada à capacidade de agir ou ao potencial de algo. Aqui, a dynamis de Jesus não é um poder abstrato, mas uma manifestação concreta da logos (Verbo, Razão).

A logos, na filosofia de Heráclito, é a lei universal que governa todas as coisas. Para os estóicos, é a razão divina que permeia o cosmos. O Evangelho de João identifica Jesus como o logos encarnado, a própria razão de Deus. Portanto, a cura de Jesus não é apenas um milagre, mas a proclamação visível da logos. O poder que flui de Jesus é a razão divina em ação, restaurando a ordem, a saúde e a integridade que foram perdidas. A doença é vista como uma desordem, e a cura, como um retorno à harmonia.

A proclamação do Evangelho (do grego euangelion, que significa "boa notícia") é a manifestação da logos de Deus no mundo. A filosofia grega buscou a verdade através da razão humana, enquanto o cristianismo vê a verdade revelada em Jesus. A philosophia (amor à sabedoria) do cristianismo é o amor a Jesus Cristo, que é a própria Sabedoria de Deus.

O texto termina com pessoas vindo de todos os lugares, "porque uma força saía dele e curava a todos". A busca por Jesus é, em termos filosóficos, a busca pela psyché (alma, vida). A multidão não busca apenas a cura física, mas também a salvação da alma. A filosofia de Platão distingue o corpo do psyché, buscando a purificação do primeiro para a libertação do segundo.

No relato de Lucas, a cura física é um sinal da cura espiritual que a logos de Jesus oferece. A verdadeira eudaimonia não é encontrada na riqueza ou no poder, mas na conexão com a logos de Deus, que dá sentido e propósito à vida. O convite para seguir Jesus é um convite para uma vida de areté (virtude) e telos (propósito), a verdadeira realização do ser humano.

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