Ressurreição do filho da viuva de Naim. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 7, 11-17
Escrevo com a mente e o coração plenos, após uma profunda meditação sobre o Evangelho de Lucas 7, 11-17. A passagem que narra a ressurreição do filho da viúva de Naim é uma proclamação filosófica de peso, que ecoa através dos tempos e se conecta com diversas correntes de pensamento e conceitos etimológicos.
À primeira vista, o texto nos apresenta uma cena de profunda dor: uma viúva que perde seu único filho. A palavra "viúva" vem do latim vidua, que significa "vazia" ou "privada". A dor não é apenas emocional; é a perda de sua linhagem, de sua segurança, de seu futuro. Essa viúva representa, na perspectiva existencialista, o absurdo da vida, a contingência do sofrimento sem causa aparente. A morte, inevitável e incompreensível, é o grande "Não" que a realidade nos impõe.
Jesus, ao ver a cena, age por "compaixão" (splagchnizomai em grego, que significa "sentir nas entranhas"). Essa compaixão não é um sentimento passivo. É a expressão de uma ética da alteridade. Levinas argumenta que a moralidade surge do encontro com o "Outro" (a viúva), cuja vulnerabilidade (seu choro) nos interpela e nos chama à responsabilidade. A face do Outro é uma ordem, um imperativo moral. Jesus, ao agir por compaixão, não está apenas lamentando, mas respondendo a essa ordem.
A filosofia estoica, que preza o controle sobre as emoções e a aceitação do destino (fatum), poderia ver nessa cena a inevitabilidade da morte. No entanto, Jesus subverte essa visão. Ele se aproxima do caixão e o toca, ato que era ritualmente impuro. Sua ação não é de aceitação passiva, mas de intervenção ativa no curso da natureza. Ele comanda: "Jovem, levanta-te!" (Egeire, neaniske).
Este comando nos leva a uma reflexão niilista. O niilismo, que questiona a existência de valores ou sentido intrínseco, vê na morte a anulação final. A vida do jovem, para o niilista, era um mero acaso, e sua morte, uma confirmação da falta de sentido. No entanto, a ressurreição é a refutação do niilismo. Não apenas a vida tem sentido, mas esse sentido é capaz de vencer a morte. A palavra "ressurreição" vem do latim resurgere, que significa "erguer-se novamente". Não é uma simples reanimação, mas um novo começo, uma vitória sobre a finitude.
Essa vitória tem implicações profundas para a metafísica. A alma e o corpo formam uma unidade inseparável. A morte é a dissolução dessa unidade. A ressurreição, portanto, é a restauração dessa unidade por um poder transcendente. Esse poder não é apenas uma força física, mas o que Paul Tillich chamaria de "Poder de Ser", a força que se opõe ao "não-ser" e à aniquilação.
Finalmente, a passagem culmina com a expressão de que todos ficaram cheios de "temor" (phobos) e "glorificavam a Deus". O temor aqui não é medo paralisante, mas a reverência diante do sublime, daquele que está além da compreensão humana. É o que o filósofo alemão Rudolf Otto chamou de "numinoso": o encontro com algo sagrado, fascinante e terrível ao mesmo tempo (mysterium tremendum et fascinans). Essa experiência do numinoso é a raiz da religião e nos conecta com a dimensão do sagrado que transcende a razão pura.
A história do filho da viúva de Naim é um convite filosófico a ir além do visível. É uma narrativa que dialoga com o existencialismo sobre o absurdo, com Levinas sobre a ética da alteridade, com o estoicismo sobre o destino, com o niilismo sobre o sentido da vida, com a metafísica sobre a natureza da existência e com a fenomenologia da religião sobre a experiência do numinoso. É a proclamação de que a vida tem a palavra final, e não a morte.
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