Jesus conversa com Nicodemus. Meditação Filosófica/Teológica de João 3:13-17.
A passagem de João 3:13-17, que captura o cerne do diálogo entre Jesus e Nicodemos, convida-nos a uma reflexão que transcende o tempo e a religião. Não se trata de uma mera narrativa, mas de uma profunda proposição filosófica sobre a nossa condição, a natureza da realidade e o significado da salvação.
Primeiramente, somos confrontados com uma tensão metafísica. A afirmação de Jesus de que "ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu" estabelece uma fronteira ontológica entre o domínio terreno e o celestial. Essa não é uma distinção geográfica, mas sim uma separação entre o que é visível e o que é o supra-sensível, o mundo do finito e o do infinito. Jesus se posiciona como a única ponte entre esses dois reinos, o que sugere que o conhecimento da realidade divina não é um feito da razão humana, mas uma graça revelada. Em outras palavras, a salvação não pode ser conquistada, mas apenas recebida, um dom que nos permite acessar uma verdade que está além do alcance de nossa experiência ordinária.
Em seguida, o texto nos apresenta uma ética do paradoxo através da analogia da serpente de bronze no deserto. A elevação de Jesus na cruz, um ato de humilhação e sofrimento extremo, é apresentada como a fonte de salvação. A cruz, que seria o símbolo máximo de rebaixamento, torna-se o meio de elevação. Essa inversão de valores nos força a questionar nossas próprias noções de poder e glória. A salvação não vem da força ou da auto-suficiência, mas do sacrifício vicário, um ato de amor que quebra o ciclo de violência e nos oferece uma nova forma de existência. A vida, aqui, não é encontrada em se proteger da dor, mas em se entregar àquilo que, à primeira vista, parece ser a derrota final.
Por fim, a mensagem culmina no cerne antropológico, com a celebre declaração de que "Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito". Este amor divino não é uma recompensa pela nossa bondade, mas a causa primária da nossa salvação. A "perdição" mencionada não é apenas a morte física, mas uma profunda alienação de nossa verdadeira essência. A vida eterna, portanto, não é apenas um prêmio pós-morte, mas uma nova qualidade de existência no presente, uma participação na natureza divina que nos liberta da nossa própria finitude. A fé, nesse contexto, não é um mero assentimento intelectual, mas um ato de confiança radical que reorganiza a totalidade de nosso ser, convidando-nos a viver com um propósito que transcende o nosso próprio.
Com a devida consideração, a proclamação do Evangelho em João 3:13-17 é um convite à reflexão e à transformação. Ela nos desafia a olhar para além do mundo material e a abraçar a possibilidade de que o verdadeiro sentido da vida reside em um amor que nos precede e que se manifesta de forma radical no sacrifício.
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