A Incompatibilidade entre Deus e o Dinheiro. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 16,9-15
A perícope de Lucas 16,9-15 — que culmina na solene advertência de que "ninguém pode servir a dois senhores: a Deus e ao Dinheiro" (v. 13) — oferece uma profunda reflexão sobre a ética da riqueza e a prioridade existencial, reverberando em diversas correntes filosóficas a partir de uma perspectiva teológica. Este trecho, em continuidade com a Parábola do Administrador Infiel (Lc 16,1-8), exige uma reorientação radical do uso dos bens terrenos em vista dos bens eternos.
O ponto de partida é a exortação de Jesus para usar o "dinheiro injusto" (mâmon da iniquidade) para "fazer amigos" (v. 9), garantindo assim um acolhimento nas "moradas eternas". Na exegese, "dinheiro injusto" não significa que todo dinheiro seja intrinsecamente mau, mas sim que as riquezas terrenas são passageiras e, muitas vezes, adquiridas em um sistema imperfeito ou podem se tornar um ídolo que desvia do verdadeiro bem.
O foco recai sobre a fidelidade (v. 10-12). A fidelidade nas "coisas pequenas" — o bom uso dos bens materiais, a gestão justa e a caridade — é vista como o exercício da virtude que prepara o indivíduo para a fidelidade nas "coisas grandes" (as riquezas verdadeiras, espirituais e eternas). O dinheiro torna-se um meio para exercitar a justiça e a caridade, virtudes cardeais e teologais, respectivamente.
No Pragmatismo Moral, o uso astuto do dinheiro para fins altruístas (fazer amigos que acolherão na eternidade) sugere uma forma de pragmatismo com foco no resultado transcendente. O valor da ação não está na natureza do bem (o dinheiro, que é "injusto/efêmero"), mas na intenção e no destino (a salvação e a caridade).
O cerne da passagem é a afirmação da incompatibilidade total entre servir a Deus e ao dinheiro (mâmon). O serviço, no sentido bíblico, implica total submissão, lealdade e dedicação.
A frase estabelece um dualismo ético entre dois senhores irreconciliáveis. Na visão cristã, Deus representa o Bem Absoluto, o Ser, e o Dinheiro (como mâmon, uma divindade ou ídolo) representa uma ilusão, a efemeridade e a idolatria. A escolha é entre o ser (em Deus) e o ter (no dinheiro).
Na Filosofia Existencial (Kierkegaard/Sartre, em sentido lato): A proibição impõe uma escolha radical e inadiável. O ser humano é colocado diante de uma decisão existencial que define o sentido de sua vida. Não há meio-termo, a neutralidade é impossível ("ou há de odiar um e amar o outro, ou há de aderir a um e desprezar o outro"). A liberdade humana é convocada a priorizar o Absoluto.
O Evangelho conclui com o confronto de Jesus com os fariseus avarentos que "zombavam dele". Jesus denuncia a busca por justificação e prestígio humano ("Vós procurais parecer justos aos olhos dos homens") em contraste com o julgamento de Deus ("Deus vos conhece os corações").
Kant, na Ética da Intenção, ensina que devemos nos concentrar no dever, a ênfase na intenção (Deus conhece os corações) é crucial. O valor moral da ação não reside na sua manifestação externa (as aparências de justiça dos fariseus), mas na sinceridade do coração e na reta intenção. A caridade genuína deve visar a glória de Deus e o bem do próximo, não o louvor humano.
Nietzsche, em sentido contrário, no versículo 15, "o que é elevado aos olhos dos homens é abominável aos olhos de Deus", inverte a lógica do valor social. É uma crítica radical à moral de rebanho ou aos valores mundanos (poder, riqueza, honra) que são "elevados" pela sociedade, mas que são "detestáveis" (abomináveis) na perspectiva do Reino. A humildade e o desapego são elevados, em oposição à soberba e à avareza farisaicas.
O texto de Lucas 16,9-15, sob a lente filosófico-teológico, é um poderoso chamado à conversão radical do coração. A fé exige uma ordenação dos afetos e dos bens, onde o Dinheiro (o mâmon) não seja o fim último (telos), mas um meio para a caridade e a construção do Reino, demonstrando fidelidade a Deus no que é pequeno e transitório para merecer o que é grande e eterno. A verdadeira sabedoria reside em escolher o Mestre que oferece a riqueza imutável em vez da ilusão da segurança material.
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