A vinda do Filho do Homem. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 17,26-37
O trecho do Evangelho de Lucas 17,26-37 sobre a vinda do Filho do Homem (o Dia do Juízo) é um convite urgente à vigilância e ao desapego. Do ponto de vista da Doutrina Católica, a passagem reitera a soberania de Deus sobre o tempo e a história, e a necessidade de uma vida de conversão contínua para estar pronto para a escatologia (os últimos tempos e o destino final da humanidade).
A essência da passagem bíblica — o chamado à prontidão diante do imprevisível e o valor da perda para a conservação da vida verdadeira (v. 33) — ressoa com diversas correntes filosóficas, especialmente aquelas focadas na ação moral e na natureza da existência humana.
Embora o existencialismo moderno seja secular em sua maior parte, o tema da decisão e da responsabilidade individual no Evangelho encontra um paralelo impressionante:
Escolha Radical: Jesus usa as figuras de Noé e Ló para mostrar que a vida "normal" (comer, beber, casar, comprar) pode ser uma distração fatal quando se nega a realidade iminente do Juízo. O existencialismo, notavelmente em Jean-Paul Sartre ou Gabriel Marcel, enfatiza que a existência precede a essência, ou seja, somos definidos pelas escolhas que fazemos. O Evangelho exige uma escolha radical de fé e prontidão agora, sem adiar a decisão crucial.
Angústia e Temporalidade: O desconhecimento da hora (a indeterminação do "onde" e "quando" no v. 37) gera uma angústia existencial. No entanto, essa angústia serve como um catalisador para a autenticidade. Não se trata de esperar o fim passivamente, mas de viver o presente com a plena consciência da finitude e da eternidade.
O Evangelho de Lucas se posiciona como um forte contraste ao hedonismo e ao materialismo prático, representados pelos que viviam absorvidos apenas nas trivialidades do dia a dia (comer, comprar, construir):
O Apego como Perigo: A instrução para não descer do terraço ou não voltar para buscar bens (v. 31-32) é uma crítica direta à crença de que a felicidade reside nos bens materiais ou na segurança terrena.
Prioridade do Transcendental: Esta crítica desafia a visão materialista que considera a realidade apenas como aquilo que é perceptível pelos sentidos. Para a doutrina católica e para o Evangelho, há uma realidade transcendental que exige a rejeição do apego desordenado aos bens e prazeres efêmeros (v. 33: "Quem procura ganhar a sua vida vai perdê-la").
O chamado à vigilância e ao desapego em Lucas 17 harmoniza-se profundamente com o cerne da Filosofia Estoica, principalmente na busca pela virtude e na aceitação do que não pode ser mudado.
O retorno inesperado do Filho do Homem. O evento final é um destino inevitável (o Juízo) que está fora do controle humano. A sabedoria reside em aceitar essa incerteza e inevitabilidade, concentrando-se no que se pode controlar: a própria atitude e prontidão.
Virtude como Único Bem, O desapego dos bens materiais (terraço/campo, v. 31). O Evangelho ensina que os bens externos (casa, campo) são indiferentes diante da Vinda. Para o Estoico, a única coisa verdadeiramente boa é a virtude (o caráter, a retidão), pois só ela é imune à perda. Viver corretamente agora é a única preparação eficaz.
Foco na Ação Presente "Quem procura ganhar a sua vida vai perdê-la; e quem a perde vai conservá-la" (v. 33). Esta frase pode ser vista estoicamente como a separação entre o que é "nosso" e o que é "externo". A "vida" no sentido carnal é um bem externo e efêmero (que se perderá). O cristão, assim como o estoico, deve "perder" o apego à vida carnal e egoísta para conservar a vida interior e virtuosa, que é a única que perdura. A vigilância é, portanto, a ação correta no presente.
O estoicismo oferece uma estrutura prática para a vigilância exigida por Jesus. Não se trata de uma ansiosa observação do céu, mas de um domínio sobre as paixões e os apegos. O cristão, vigilante, é aquele que, como um sábio estoico, vive cada dia como se fosse o último, não por medo da destruição, mas por fidelidade ao único Bem verdadeiro: a vontade divina.
Lucas 17,26-37, sob a luz da reflexão filosófica, transcende a mera profecia apocalíptica. Ele se torna um ensinamento atemporal sobre a priorização e o caráter.
A mensagem central, validada pela perspectiva estoica, é que a salvação não é um evento de resgate para quem se esconde, mas uma consequência de uma vida bem vivida, marcada pela virtude (a retidão cristã) e pelo desapego aos bens fugazes do mundo. A verdadeira preparação é a conversão do coração no hic et nunc (aqui e agora), pois a hora da verdade — seja no fim dos tempos ou no momento da morte individual — chegará de forma inesperada e decisiva.
Comentários
Enviar um comentário