Quando será o Reino de Deus? Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 17,20-25

O cerne da passagem de Lucas 17,20-21 reside na resposta de Jesus aos fariseus: "O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: 'Está aqui' ou 'Está ali', porque o Reino de Deus está entre vós"

A expressão grega entos hymon permite uma dupla interpretação, crucial para a compreensão filosófica e teológica:

 "No meio de vós": O Reino já está presente na pessoa e na ação de Jesus Cristo. É uma realidade histórica e objetiva que se manifesta na Igreja e na comunidade de fé.

 "Dentro de vós": O Reino é uma realidade espiritual e subjetiva, que se concretiza no coração e na alma do crente pela graça e pela conversão.

A interpretação do Reino como uma realidade interior dialoga fortemente com a tradição filosófica que valoriza a subjetividade e o autoconhecimento.

Agostinho de Hipona (Neoplatonismo Cristão): A frase ecoa o famoso lamento de Santo Agostinho em suas Confissões: "Eis que tu estavas dentro, e eu fora" (X, 27, 38). Para Agostinho, a busca por Deus não é externa, mas uma volta para o interior da alma (in interiore homine habitat veritas - no homem interior reside a verdade). Esta corrente reforça a ideia de que o Reino é primeiramente um dom e uma ordenação da vontade e da inteligência humana a Deus.

 Com o Existencialismo, embora anacrônico, o foco na escolha pessoal e na responsabilidade ressoa com a natureza não-ostensiva do Reino. Se o Reino não é um espetáculo externo, sua aceitação e vivência exigem um ato de liberdade individual, uma decisão existencial de viver sob a soberania de Cristo. O crente não apenas espera, mas ativamente constrói o Reino em sua vida cotidiana, respondendo ao apelo interior.

A segunda parte da passagem (Lc 17,22-25) trata da futura e gloriosa vinda do Filho do Homem, em contraste com a sua presença discreta e com o sofrimento prévio que Ele deve enfrentar.

Jesus adverte contra os falsos messias e a busca por sinais externos, afirmando que a vinda final será súbita e universal ("como o relâmpago"). Essa perspectiva estabelece uma tensão escatológica fundamental: o Reino já está presente (já) e, ao mesmo tempo, sua plenitude ainda não se manifestou (ainda não).

 A ideia da manifestação final do Filho do Homem remete a um telos (fim, propósito) da história. O Reino, em sua plenitude, é o fim último para o qual a criação se dirige. A vinda escatológica não é um evento aleatório, mas a consumação do plano divino, a plena realização da Natureza (realidade) conforme o desígnio de Deus.

 Em uma leitura mais complexa e cautelosa, poderia-se traçar um paralelo com a filosofia da história hegeliana, onde o Espírito se manifesta na história através de uma progressão. A vinda sutil do Reino (tese) e sua manifestação gloriosa (síntese) passam pela paixão e rejeição de Cristo (antítese, o sofrimento necessário). No entanto, a perspectiva cristã é pessoal (o Filho do Homem) e não puramente impessoal (o Espírito Absoluto).

A afirmação "Antes, porém, ele deverá sofrer muito e ser rejeitado por esta geração" (Lc 17,25) introduz a filosofia da paixão e do sacrifício. O Reino de Deus na Terra passa pela Cruz.

O sofrimento de Cristo é o modelo do amor ágape e da doação radical. O cristão, vivendo o Reino em seu interior, deve abraçar uma ética de sacrifício e de serviço, em oposição à ética hedonista ou utilitarista que busca apenas a glória e o prazer imediatos. O Reino não se constrói na ostentação do poder, mas na humildade e no serviço, ecos da filosofia moral que valoriza a virtude sobre a aparência.

Lucas 17,20-25 oferece uma antítese à visão mundana e ostensiva do poder. Filosoficamente, o texto é um convite à reflexão metafísica e moral. A natureza do Reino, discreta e interior (entos hymon), alinha-se à tradição da interioridade (Santo Agostinho), exigindo uma resposta existencial do crente.

Por outro lado, a advertência sobre a vinda súbita e gloriosa do Filho do Homem, precedida pelo sofrimento, inscreve o Reino em uma perspectiva teleológica, onde a história caminha para uma consumação que passa pela Cruz. Assim, o Reino de Deus, na leitura católica e filosófica, é uma realidade que já se vive na intimidade ética e espiritual do presente, enquanto se espera, vigilante, a sua plena e resplandecente manifestação no futuro.

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