A Parábola das Dez Minas. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 19,11-28
A Parábola das Dez Minas em Lucas 19,11-28 é um texto fundamental que, sob uma exegese católica, oferece ricas camadas para uma análise filosófica, especialmente no que tange à ética, responsabilidade, e à natureza da ação humana em relação a um bem confiado.
Do ponto de vista da Doutrina, o texto é lido principalmente sob duas chaves:
Escatologia: A parábola é narrada porque "eles pensavam que o Reino de Deus ia se manifestar logo" (v. 11). Ela adverte contra a passividade e a inação, apontando para a volta de Cristo (o nobre que retorna) e o Juízo Final (o ajuste de contas). O tempo de espera é o tempo da ação e do serviço.
Mordomia: A parábola enfatiza o conceito de mordomia, ou seja, a administração responsável dos bens e dons (sejam eles materiais, espirituais, intelectuais, ou talentos pessoais) que Deus confiou ao ser humano. A mina não é um presente para ser guardado, mas um recurso para ser multiplicado ativamente em serviço ao Reino.
O servo que esconde a mina é condenado não por ter feito mal, mas por não ter feito nada — por sua omissão e acídia (preguiça espiritual), um dos sete pecados capitais.
A narrativa oferece um terreno fértil para a discussão de correntes filosóficas cruciais:
Ação e Telos (Fim): Para a Ética Aristotélica, toda ação visa a um bem ou télos (fim). O nobre confia as minas com um télos claro: o lucro. Os servos que negociam e multiplicam as minas (v. 16, 18) agem de acordo com o Bem Objetivo (a vontade do nobre/Deus). O servo preguiçoso, ao esconder a mina, falha em direcionar sua potência (capacidade de agir) ao seu fim próprio.
Virtude da Diligência: A Filosofia Tomista absorve a ética aristotélica. Ela veria a ação dos servos bem-sucedidos como um exercício da virtude da Diligência (studiositas) e da Justiça (no sentido de dar ao nobre o que lhe é devido). A condenação do terceiro servo é a reprovação da Acídia, a tristeza pela realização do bem divino ou o desinteresse em cumprir o dever que conduz à inação.
Responsabilidade Radical: Embora seja uma corrente moderna e secular, o Existencialismo (especialmente o de Jean-Paul Sartre) pode ser usado por contraste para realçar a seriedade da parábola. A máxima sartreana "a existência precede a essência" implica que o homem é radicalmente livre e responsável por tudo o que ele é.
O terceiro servo, ao esconder sua mina, faz uma escolha. Ele decide por sua própria inação. Na perspectiva existencialista, ele não pode se esconder atrás da "natureza" da mina ou do caráter do seu senhor ("homem rigoroso", v. 21). Ele é o único responsável pelo valor zero de seu investimento. A parábola, nesse sentido, é um chamado existencial: "O que você está fazendo com o tempo/bens que lhe foram dados?" A recusa em agir é, em si mesma, uma ação com consequências.
A parábola contém um sub-enredo político. A oposição ao nobre ("Não queremos que este homem reine sobre nós", v. 14) e sua posterior punição (v. 27) refletem a questão da legitimação do poder. O nobre, que obtém seu reino (v. 15), age como um soberano legítimo.
Esta parte da parábola toca no Contratualismo. A relação entre o nobre e os servos pode ser vista como um "contrato" de serviço. A mina é a obrigação (dever) que deve ser cumprida. O servo preguiçoso quebra o pactum ao recusar-se a negociar. Seu castigo final (v. 27) é o destino daqueles que rejeitam o poder estabelecido e suas leis, uma temática central nas obras de filósofos como Thomas Hobbes (em seu conceito de Soberano e lei).
A parábola endossa a teleologia e a ética das virtudes (tomista), ao recompensar a ação diligente que visa ao Bem Maior (o lucro para o senhor/Deus). Ao mesmo tempo, a condenação do servo preguiçoso ecoa a severidade do Existencialismo secular ao julgar a escolha da inação como o supremo fracasso moral e existencial. A mina, portanto, não é apenas dinheiro, mas a própria vida — uma potencialidade que exige ser investida e multiplicada, sob pena de julgamento severo e perda total.
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