Cura do Cego de Jericó. Meditação Filosófica/teológica de Lucas 18,35-43
A narrativa evangélica da cura do cego de Jericó (Lucas 18,35-43) transcende o mero milagre, oferecendo um profundo paradigma filosófico sobre a natureza da fé, da razão, do conhecimento e da liberdade humana. Uma análise católica, enriquecida pelo diálogo com as grandes correntes do pensamento, revela nesta passagem uma rica tapeçaria de verdades sobre a condição humana e a graça divina.
A figura do cego, sentado à beira do caminho e clamando "Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!" (v. 38), é o ponto de partida para a reflexão.
O cego representa a existência humana marcada pela carência, finitude e incompletude. Sua cegueira não é apenas física; é a alegoria da cegueira intelectual e moral que o homem experimenta.
Existencialismo: A escola de pensamento, particularmente em figuras como Gabriel Marcel ou Karl Jaspers (que, embora não estritamente católico, oferece ferramentas de análise), ressoa aqui. O cego vive em uma situação de facticidade (sua condição de cego) e experimenta a angústia da limitação. Seu grito é o ato de auto-superação (o leap of faith), o reconhecimento de sua miséria e a busca autêntica por um Sentido que a razão, por si só, não pode prover. A cura não é apenas o retorno da visão, mas o retorno à plena existência no mundo.
A multidão tenta calar o cego (v. 39). Esse é o ruído da razão mundana e do senso comum que busca impor limites ao que é considerado possível ou aceitável. O cego, contudo, insiste.
Tomismo e a Razão Iluminada: A filosofia católica, fundamentada em São Tomás de Aquino (Aristotelismo cristão), defende que a Fé e a Razão são as "duas asas" pelas quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade. A fé do cego (o seu grito) é a pré-condição para que a Razão (o conhecimento de Jesus como Messias) se complete. Sua visão é restaurada pela virtude da fé, mostrando que o lumen fidei (luz da fé) é a chave para o lumen rationis (luz da razão) alcançar a verdade plena. O objeto da razão (o mundo) é visto corretamente apenas quando iluminado pela graça.
Jesus chama o cego e faz a pergunta crucial: "Que queres que eu te faça?" (v. 41). A resposta do cego, "Senhor, que eu veja de novo," é um ato de liberdade e teleologia (busca de um fim).
A pergunta de Jesus é o reconhecimento da liberdade e da dignidade do indivíduo. A ética filosófica clássica e católica é teleológica; ou seja, a vida humana é orientada para um Fim Último (Felicidade/Bem-aventurança).
Aristóteles e a Potência/Ato: Para Aristóteles, o ser é visto em termos de potência (o que ele pode ser) e ato (o que ele é). O cego está em potência de ver. Jesus, o Ato Puro (na visão tomista), transforma essa potência em ato. O cego busca a virtude da visão, essencial para a sua Eudaimonia (florescimento humano).
O Ato da Vontade: A resposta do cego é um ato puro da vontade livre. A cura não é imposta; é uma resposta à liberdade do homem. A filosofia católica afirma que a graça aperfeiçoa a natureza, mas não a anula. A fé do cego é sua livre cooperação com o dom de Deus.
A filosofia de Santo Agostinho, profundamente influenciada pelo Neoplatonismo, vê a realidade como uma emanação da Luz divina (o Bem). A cegueira é o afastamento dessa Luz; a visão é o retorno à Ordem e à contemplação da Verdade.
Para Agostinho, a verdade está dentro (in interiore homine habitat veritas). A cura do cego é a iluminação interior que permite à alma ver a Ideia do Bem (Deus). O cego, agora vendo, se junta à comunidade e segue Jesus, integrando-se à Ordem correta do universo. Ele vive o princípio de que o amor a Deus (glorificação) é a ordem suprema da alma.
A passagem de Lucas 18,35-43, vista sob a lente da filosofia, é um argumento poderoso para a união da fé e da razão. Ela demonstra que a liberdade humana é exercida plenamente no reconhecimento da própria carência e no grito de fé. A cura é a síntese da graça divina (o chamado de Jesus) e do livre-arbítrio (a resposta do cego), resultando na verdadeira visão – não apenas a física, mas a que permite ao homem cumprir seu destino teleológico: seguir o Messias e glorificar a Deus. O cego de Jericó é o modelo do filósofo que, reconhecendo a cegueira da razão sem a fé, clama pela Verdade que o liberta e o coloca no caminho.
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