As Bem-Aventuranças. Meditação Filosófica/Teológica de Mateus 5,1-12a
O trecho do Evangelho de Mateus 5,1-12a, conhecido como as Bem-Aventuranças, é o proêmio do Sermão da Montanha e representa o cerne da ética e espiritualidade cristã. Este texto não é apenas um código moral, mas uma profunda revolução de valores que desafia as concepções de felicidade e bem-viver predominantes nas principais correntes do pensamento humano.
A filosofia clássica, especialmente a grega, dedicou-se intensamente à busca da Eudaimonia (felicidade, florescimento humano). No entanto, o conceito de felicidade proposto por Jesus nas Bem-Aventuranças se choca radicalmente com as premissas de algumas correntes filosóficas antigas e modernas:
Para Aristóteles, a felicidade (Eudaimonia) é alcançada pela atividade da alma conforme a virtude perfeita, exigindo bens exteriores e condições favoráveis. O cristão, porém, é chamado à "Bem-Aventurança" (do latim beatus, que significa feliz ou abençoado) precisamente em condições que o mundo consideraria de infelicidade: a pobreza, o luto, a perseguição. As Bem-Aventuranças redefinem a virtude, priorizando virtudes teologais (fé, esperança e caridade) e morais (como a humildade, a mansidão, a misericórdia) que se manifestam na dependência de Deus e na ação em favor do próximo.
Embora o estoico busque a Apatheia (ausência de paixões) e a virtude como o único bem para atingir a serenidade (ataraxia), a Bem-Aventurança cristã não prega uma resignação fria. Ela valoriza o "chorar" (luto, tristeza, compaixão) e a "fome e sede de justiça", transformando a aflição e o desejo em molas propulsoras para a ação e a esperança na consolação e na justiça de Deus. A felicidade não está na indiferença, mas na participação compassiva no sofrimento do mundo.
O Hedonismo e Utilitarismo, correntes que identificam o bem supremo com o prazer ou a maximização do bem-estar e da utilidade para o maior número. As Bem-Aventuranças são o seu completo oposto, pois enaltecem o sofrimento, a renúncia e a perseguição em prol de um valor transcendente ("por causa da justiça", "por causa de mim"), subvertendo a lógica da recompensa imediata e do conforto material.
São Tomás de Aquino via as Bem-Aventuranças como um caminho para a felicidade imperfeita nesta vida, mas principalmente como a descrição dos atos que conduzem à Felicidade Perfeita (Beatitudo), que é a Visão de Deus na vida eterna. Elas são a participação na própria natureza divina, a qual transcende qualquer bem puramente humano ou terrestre.
As Bem-Aventuranças estão intrinsecamente ligadas aos Dons do Espírito Santo. Por exemplo, ser "pobre em espírito" está associado ao Dom do Temor de Deus (humildade radical); ter "fome e sede de justiça" ao Dom da Fortaleza. Elas são a manifestação da caridade e da plenitude da vida cristã, tornando o homem apto a receber a graça.
Clamam por uma conversão interior e uma disposição da alma. O "puro de coração" refere-se à retidão da intenção e à integridade moral, um tema que ressoa com a filosofia da moralidade que valoriza a boa vontade (como a de Kant, em alguns aspectos, embora a motivação final seja diferente). A pobreza de espírito é a humildade que liberta da soberba e da autossuficiência.
São um chamado à ética social. Ser "misericordioso", ter "fome e sede de justiça" e ser "pacificador" exigem a intervenção ativa no mundo. O cristão é chamado a encarnar a justiça de Deus nas relações humanas e na estrutura da sociedade, como ecoa na Teologia da Libertação e em parte da Filosofia Personalista (que valoriza a pessoa e suas relações sociais como centrais).
Em suma, as Bem-Aventuranças são um manifesto que inverte a lógica do mundo: a felicidade não está no ter, no poder, ou na fama, mas na renúncia, na humildade e na construção do Reino de Deus. Elas são a "carteira de identidade do cristão", um ideal ético e filosófico que oferece um caminho de realização humana que só se completa na união com o Transcendente.
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