Zaqueu e Jesus. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 19,1-10

O episódio de Zaqueu em Lucas 19,1-10 não é apenas um relato de conversão individual, mas uma profunda lição teológica e moral que se articula com diversas correntes filosóficas sobre a natureza humana, a moralidade e a transformação pessoal. A narrativa da Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo serve como um rico texto dissertativo para uma apresentação que busque as conexões entre a fé católica e a reflexão filosófica.

Zaqueu, o chefe dos cobradores de impostos em Jericó, era um homem rico, mas socialmente marginalizado e considerado pecador. Sua baixa estatura e a multidão impediam-no de ver Jesus. Essa condição reflete, filosoficamente, a limitação da condição humana – o "ser-aí" (Dasein) da filosofia existencialista – preso às contingências físicas e sociais.

A atitude de Zaqueu, que corre e sobe na árvore para ver Jesus, pode ser interpretada à luz da alegoria da Caverna de Platão. Zaqueu é aquele que, insatisfeito com as sombras (sua vida de riquezas ilícitas e ostracismo social), busca ativamente a Luz, a Ideia do Bem encarnada em Jesus. A subida na árvore é a metáfora do esforço intelectual e espiritual para transcender as limitações e alcançar a verdade. O desejo de ver ("procurava ver quem era Jesus") é o éros platônico, a força que impulsiona a alma para o conhecimento e a beleza.

Zaqueu rompe com o "senso comum" da multidão ("murmuravam" ao ver Jesus hospedar-se com um pecador). Sua atitude de subir na árvore, ridícula para sua posição social, demonstra uma escolha por sua autenticidade em detrimento da má-fé (o conformismo social) ou do "o que se diz" (a opinião da multidão), conceitos chaves do existencialismo (Sartre, Heidegger). Ele prioriza o encontro pessoal sobre a imagem pública.

O encontro é iniciado por Jesus, que chama Zaqueu pelo nome e se autoconvida para sua casa. "Zaqueu, desce depressa! Hoje devo ficar em tua casa."

A iniciativa de Jesus está no cerne da Teologia Católica e ressoa com o pensamento de São Tomás de Aquino. O homem é chamado à felicidade, mas não pode alcançá-la apenas por suas forças (virtudes naturais). A Graça de Deus é o auxílio sobrenatural que move a vontade humana em direção à sua finalidade última. O chamado pelo nome é o reconhecimento da dignidade intrínseca de Zaqueu, que, apesar de seus atos (pecados), mantém sua essência de criatura amada por Deus. A Graça (o chamado de Jesus) precede e capacita a resposta (a descida e o acolhimento alegre).

A descida de Zaqueu ("desceu depressa e O recebeu com alegria") marca o fim de uma vida viciada e o início de uma vida orientada pela Virtude. Embora Aristóteles focasse na ação como caminho para a virtude, o encontro com Jesus funciona como um catalisador da mudança. Ele não apenas muda seu hábito, mas sua orientação fundamental (hexis), preparando-o para a ação virtuosa que se segue. A alegria é o sinal da alma que reencontra seu verdadeiro bem.

O ponto culminante é a resposta de Zaqueu e a declaração de Jesus. Zaqueu promete dar metade de seus bens aos pobres (Caridade) e reparar quadruplicadamente aqueles que defraudou (Justiça).

A promessa de Zaqueu ressoa com o conceito de Imperativo Categórico de Immanuel Kant. A reparação do dano e a caridade são elevadas a um Dever Moral incondicional. Zaqueu não age por utilidade ou prazer, mas por respeito à lei moral interna despertada pelo encontro. Ele universaliza sua ação, transformando o vício da extorsão em virtude da justiça e generosidade, assumindo uma obrigação moral de reparação.

Na Justiça Comutativa e Distributiva: Zaqueu aplica dois tipos de justiça da filosofia clássica: a Justiça Comutativa ao restituir o que tirou, reequilibrando as relações (devolver 4 vezes mais, indo além da lei, que pedia 20\% a mais), e a Justiça Distributiva ao destinar metade de seus bens aos pobres, redistribuindo a riqueza para o bem comum e combatendo a desigualdade. Sua conversão é integral, englobando a esfera pessoal, social e econômica.

O Evangelho conclui: "Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido."

O encontro de Zaqueu, sob a ótica católica e filosófica, é a união da Graça Divina com a Liberdade Humana. A busca pessoal (subir na árvore) é recompensada pelo chamado (a Graça), que, por sua vez, exige uma resposta moral concreta (a Justiça e a Caridade). A narrativa demonstra que a verdadeira transformação não é apenas interior, mas se manifesta em ações que reparam o passado e reorientam o futuro do indivíduo na sociedade. A salvação, para Lucas, é sempre um evento que restaura o homem à sua plena dignidade de "filho de Abraão" e o integra na ordem da caridade e da justiça.

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