A eleição dos 12. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 6,12-19.

O Evangelho de Lucas 6,12-19 narra três momentos cruciais da missão de Jesus: a oração na montanha, a eleição dos Doze Apóstolos e o encontro com a multidão e as curas. Estes atos não são meros eventos biográficos; eles constituem um profundo tratado sobre a ação, o discernimento e a autoridade, permitindo uma rica exploração à luz de diversas correntes filosóficas.

O texto começa com Jesus subindo a montanha para rezar e passar a noite em oração a Deus (Lc 6,12). Este ato prévio à decisão fundamental de escolher os Apóstolos evoca questões de epistemologia e metafísica.

A "montanha" (o lugar alto) remete simbolicamente à ascensão da alma em busca do Bem e da Verdade no pensamento platônico. Antes de agir no mundo sensível (o "lugar plano" do versículo 17), Jesus busca o conhecimento e a vontade do Pai, a realidade suprema, tal como o prisioneiro que escapa da Caverna e contempla o Sol (alegoria platônica). A oração é a via para o discernimento da Forma (Ideia) do Plano Divino.

 Sob uma ótica tomista, a oração noturna é um ato de Virtude da Prudência (uma das virtudes cardeais) levado à sua perfeição divina. A prudência, para Santo Tomás de Aquino, é a reta razão no agir, que orienta as outras virtudes. Jesus, em sua humanidade, modela o ato de buscar a causa primeira (Deus) para orientar a causa segunda (a escolha e a missão dos Apóstolos). A decisão não é impulsiva, mas fruto da contemplação que precede a ação.

A seleção dos Doze é uma ação teleológica, ou seja, orientada a um fim específico: a continuação da missão de salvação. Jesus escolhe os mais aptos para alcançar o telos do Reino. A diversidade dos escolhidos (pescadores, um publicano, Simão, o Zelota) mostra que a areté (excelência/virtude) necessária para a missão é definida pelo chamamento, e não apenas por méritos sociais ou intelectuais preexistentes.

Embora anacrônico, o estabelecimento dos Doze representa a fundação de um corpo organizado, com uma autoridade delegada. A escolha de Jesus funciona como a instituição de uma autoridade fundadora. Ao delegar o poder de "serem enviados" (o significado de apóstolos), Jesus estabelece a ordem da polis (comunidade) e sua hierarquia, contrastando com o caos da multidão.

O ato de escolher – a livre escolha de Jesus – é radicalmente existencial. É um ato que cria valor e responsabilidade, definindo o destino desses homens. A eleição não é uma necessidade cega, mas um ato de liberdade (divina e humana em Cristo) que engaja esses indivíduos em um projeto de totalidade.

Ao descer da montanha, Jesus se encontra com a multidão sedenta por ouvir a Palavra e ser curada (Lc 6,17-19). A cura, por meio do "poder que d'Ele saía" (dýnamis), é a manifestação da autoridade conquistada na oração.

O versículo 19, "uma força saía dele, e curava a todos," pode ser lido sob uma ótica fenomenológica. O poder de cura não é uma ideia abstrata, mas uma experiência imediata e sensível da graça e da divindade. A fé e o toque da multidão tornam a graça de Jesus um fenômeno perceptível e atuante na realidade material.

A multidão vem ouvir Jesus (v. 18). Isso sublinha a importância da Palavra (Lógos). No Prólogo de João, Cristo é o Lógos encarnado, a Razão Divina que dá sentido ao universo. Ao ouvir o Lógos, a multidão se realinha com a verdade e, por extensão, se cura da desordem e do pecado. O ato de escuta é um ato filosófico de abertura à Razão.

Lucas 6,12-19 é um texto fundacional que oferece um modelo para a vida cristã e para o agir humano. O trecho ensina que a ação eficaz e a autoridade legítima (poder) não procedem da mera vontade ou do impulso, mas de um profundo discernimento contemplativo. A escolha dos Apóstolos é o ato político-ético que fundamenta a comunidade, e a cura da multidão é a manifestação visível da Verdade e do Poder Divino. Em essência, o Evangelho apresenta uma filosofia de vida onde a contemplação deve sempre informar a ação, garantindo que as escolhas humanas estejam alinhadas com a Vontade Divina, que é a fonte de toda a verdadeira autoridade e cura.

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