Liberdade da Pessoa Humana e o Primado do Amor. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 13,10-17
O Evangelho de Lucas 13,10-17, que narra a cura da mulher encurvada por Jesus em dia de Sábado, oferece um rico campo para uma análise filosófica sob a perspectiva cristã, destacando o primado da pessoa humana, da caridade e da liberdade em relação às meras observâncias legais. O texto se torna um ponto de inflexão que questiona a rigidez legalista e reafirma a essência do Reino de Deus.
A mulher, encurvada por dezoito anos, simboliza a condição humana sob o peso da doença, opressão ou pecado, incapaz de "olhar para o alto" (sur sum respicere, como mencionado em algumas exegeses). Filósofos como Aristóteles definiam o ser humano pela sua razão e pela busca da felicidade (eudaimonia), que se alcança pelo exercício das virtudes. A mulher encurvada está impedida de viver plenamente sua natureza.
Jesus, ao ver, chamar e curar a mulher por iniciativa própria, manifesta a Caridade (Agápe). São Tomás de Aquino, seguindo Aristóteles, afirma que a Caridade é a mais alta das virtudes teologais, a forma de todas as virtudes, que ordena o homem ao seu fim último: Deus e a felicidade eterna. A cura no Sábado é um ato de justiça e misericórdia, que restaura a dignidade da "filha de Abraão" e a coloca acima da observância do preceito sabático. O bem da pessoa é a lei maior.
O chefe da sinagoga representa uma forma de legalismo estrito (que pode ser visto, em um anacronismo filosófico, como um precursor do Positivismo Jurídico, onde a lei escrita é a única fonte de justiça, independentemente de seu conteúdo moral). Sua fúria decorre da violação da norma (Nomos), colocando a regra (o descanso sabático) acima do bem da vida (Bios).
Jesus, em sua resposta, invoca um princípio de Lei Natural e de Razão Prática, caro ao Tomismo. Se é justo e lícito desamarrar um animal no Sábado para dar-lhe de beber, quanto mais o é libertar um ser humano. Jesus defende a finalidade da lei, que é servir ao homem e ao seu bem. Ele reafirma o princípio de que a Lei é "ordem da razão para o bem comum" (Tomás de Aquino), e não um fim em si mesma. O Sábado foi feito para o homem, e não o homem para o Sábado.
A cura é um ato de libertação. A mulher é liberta de sua opressão física (o "espírito que a tornava doente") e, simbolicamente, do peso da opressão religiosa que a manteria encurvada. A liberdade humana, essencial para a moralidade e a responsabilidade, é restaurada, permitindo-lhe, imediatamente, louvar a Deus - o ato máximo de um ser livre e grato.
Embora muito posterior, o Evangelho ecoa temas da Filosofia Existencial (e, em uma análise cristã, do Existencialismo Cristão).
A mulher encurvada vive uma existência inautêntica, presa a uma condição que a impede de se erguer e de ver o horizonte.
Jesus "vê" e "chama" a mulher (v. 12), interpelando sua existência. A cura é um encontro que exige uma resposta, uma conversão (mudança de postura). O Existencialismo enfatiza a importância da decisão e da ação para a constituição do próprio ser. A mulher, ao ser curada, imediatamente se endireita e glorifica a Deus, assumindo uma nova postura existencial de louvor e liberdade.
No texto observamos a hipocrisia como Inautenticidade. Jesus chama os opositores de "Hipócritas" (v. 15). A hipocrisia, sob um olhar existencial, é a vida inautêntica, a fuga da verdade do ser e o refúgio em papéis sociais vazios (a lei sem amor). Eles valorizam a aparência e a norma externa em detrimento da vida real.
O Evangelho de Lucas 13,10-17 é a defesa filosófica e teológica do primado do ser sobre a norma. Fundamentada no Tomismo e na Lei Natural, demonstra que a ação de Jesus é a manifestação perfeita da razão divinamente inspirada, onde o bem da pessoa (a caridade) é o critério supremo para a interpretação e aplicação da lei. A cura é o restabelecimento da dignidade e da liberdade humanas, permitindo que a pessoa, finalmente ereta, cumpra seu fim: erguer o olhar e louvar a Deus.
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