A Liberdade e o Destino. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 13,31-35
O trecho do Evangelho de Lucas 13,31-35 apresenta Jesus Cristo em um momento crucial de sua jornada, opondo-se à ameaça de Herodes e lamentando o destino de Jerusalém. Este texto permite uma profunda reflexão sobre a liberdade, o destino, a coerência da missão e o paradoxo do amor rejeitado, ecoando temas centrais em diversas correntes do pensamento.
O primeiro aspecto a ser analisado é a resposta destemida de Jesus aos fariseus que o advertem sobre Herodes: "Ide dizer a essa raposa: Eu expulso demônios e realizo curas hoje e amanhã; ao terceiro dia chego ao meu fim. Mas hoje, amanhã e depois de amanhã, devo seguir o meu caminho..." (Lc 13,32-33).
O Existencialismo (e.g., Jean-Paul Sartre), embora historicamente posterior e ateu em suas formas mais conhecidas, oferece uma chave de leitura para a Liberdade Radical de Jesus. Ao rejeitar a ameaça e manter-se firme em seu propósito (o "meu caminho" e o "terceiro dia"), Jesus afirma sua essência por meio de suas escolhas e ações. Sua vida não é determinada pela tirania de Herodes, mas sim pela sua vocação messiânica, exercida em plena consciência de seu desfecho (a Paixão e Ressurreição). Ele é o ser para a morte (Heidegger) que a assume livremente, transformando-a em culminância de sua missão.
A Igreja interpreta essa atitude como a perfeita humanidade de Cristo, que, consciente de sua divindade e dos desígnios do Pai, exerce sua liberdade moral para cumprir a Salvação. Não se trata de fatalismo, mas de adesão incondicional à Vontade de Deus. O "hoje, amanhã e depois de amanhã" sublinha a coerência de sua missão e a inadiável urgência da Graça, que age independentemente das forças opressoras.
A afirmação "não é possível que um profeta morra fora de Jerusalém" (Lc 13,33) introduz a ideia de um destino inescapável e de uma necessidade teológica e histórica. Jerusalém, o centro da fé e do poder judaico, é o local simbólico do confronto final.
O Racionalismo de Spinoza ou a Dialética da História de Hegel podem dialogar com esta passagem. Para Spinoza, a liberdade consiste em reconhecer a necessidade intrínseca das coisas, e Jesus, ao aceitar o destino de Jerusalém, demonstra uma compreensão racional e completa de sua missão. Em uma leitura hegeliana, Jerusalém representa a Ideia Absoluta da nação, que só pode ser superada (e salva) pela negação (a morte do Profeta) para alcançar uma síntese superior (a Ressurreição e a Nova Aliança).
A necessidade de Jesus morrer em Jerusalém é vista como a consumação do plano salvífico de Deus. É a cidade que simboliza a História da Salvação, mas que também historicamente rejeitou os profetas. A morte na cidade santa é o ápice da Aliança, onde o sacrifício definitivo se realiza, cumprindo as Escrituras. A obediência de Cristo transforma a morte profética em sacrifício redentor.
O lamento de Jesus, "Jerusalém, Jerusalém! Tu que matas os profetas... Quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos... mas tu não quiseste!" (Lc 13,34), é o ponto mais pungente do texto. A imagem da galinha que reúne os pintainhos sob suas asas expressa a ternura e o amor protetor de Deus que é livremente rejeitado pelo ser humano.
Já a dimensão do querer e do não querer remete à Filosofia da Vontade de Santo Agostinho (na Patrística) e, posteriormente, a Schopenhauer ou Nietzsche (em contextos diferentes). Agostinho estabeleceria a ligação entre a vontade humana (o "não quiseste") e o problema do Mal e da Liberdade. O "não quiseste" de Jerusalém é o exercício trágico do Livre Arbítrio, a capacidade humana de rejeitar o Bem Supremo (a Salvação oferecida por Cristo). A rejeição gera o abandono: "Eis que vossa casa ficará abandonada." (Lc 13,35).
Este lamento revela a Misericórdia Divina e a Tristeza de Deus diante da ingratidão e da obstinação humana. A imagem da galinha é uma metáfora poderosa da solicitude de Deus (a Providência). A tragédia reside na liberdade de resistência do homem ao Amor. A promessa final, "não me vereis mais, até chegar o dia em que direis: 'Bendito o que vem em nome do Senhor!'," é a esperança Escatológica de que, após o abandono, haverá o reconhecimento final e a acolhida do Messias na Parusia (Segunda Vinda), restaurando a relação.
Lucas 13,31-35 não é apenas um relato de ameaça e destino, mas um denso texto sobre a ética da responsabilidade e a antropologia da liberdade. A firmeza de Jesus ressoa o imperativo existencial de assumir a missão, custe o que custar. O lamento sobre Jerusalém, por sua vez, confronta a liberdade humana com o Amor Incondicional de Deus, estabelecendo o paradoxo central da fé: a salvação é oferecida em plenitude, mas sua aceitação exige a adesão livre e a coerência de vida que muitos se recusam a ter.
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