Primazia da Caridade sobre a Letra da Lei. Meditação Filosófica/ Teológica de Lucas 14,1-6
O Evangelho de Lucas 14,1-6, que narra a cura de um hidrópico por Jesus em dia de sábado, na casa de um chefe fariseu, transcende a mera descrição de um milagre. Ele se configura como um embate filosófico-teológico crucial sobre o verdadeiro sentido da Lei, do descanso sabático e da ação moral, com profunda ressonância na doutrina católica. O cerne da discussão reside na tensão entre a rigidez formal da norma e o imperativo ético da caridade e da misericórdia, um tema que dialoga com diversas correntes filosóficas.
O cenário é de observação e vigilância (Lc 1,1). Os mestres da Lei e os fariseus representam uma mentalidade legalista e formalista, onde a obediência cega à letra da lei (o preceito de não trabalhar no sábado) se sobrepõe à necessidade humana. Essa postura pode ser criticada sob a ótica de uma ética baseada puramente no dever pelo dever sem considerar as consequências ou o bem intrínseco.
O Positivismo Jurídico, embora posterior, ecoa a rigidez farisaica ao sustentar a validade da lei apenas pela sua origem formal, ignorando seu conteúdo moral ou de justiça. Jesus, ao perguntar: "A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?" (Lc 14,3), confronta essa ética fechada, expondo a falência de um sistema que impede a ação salvífica e humanitária.
Embora Jesus vá além de Kant, sua pergunta e seu ato sugerem uma máxima moral universalizável. A analogia do animal ou do filho que cai no poço (Lc 14,5) estabelece um princípio: o bem inadiável ao próximo é um imperativo que se sobrepõe à proibição ritual. Jesus age movido pela boa vontade de aliviar o sofrimento, um valor intrínseco (a Caridade, no sentido teológico) que não pode ser condicionado por normas externas. O silêncio dos adversários (Lc 14,4; 14,6) atesta a irrefutabilidade desse imperativo prático.
O ato de Jesus se alinha à Ética das Virtudes (Aristóteles) e, posteriormente, à doutrina da Lei Natural (São Tomás de Aquino, que incorpora Aristóteles). A finalidade última do Sábado, segundo a tradição judaico-cristã, é o bem do homem ("o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado" - Mc 2,27). O bem supremo da Lei (o télos moral) é a Caridade. Curar o hidrópico é o ato que melhor realiza o fim da Lei, pois promove a vida e a dignidade humana. A caridade se revela como a virtude teologal que aperfeiçoa a Lei.
O silêncio dos fariseus é um elemento dramático e filosófico-moral de grande peso. Não é um silêncio de contemplação, mas de recusa obstinada em admitir a verdade (o imperativo do bem).
Na perspectiva existencialista, o silêncio farisaico pode ser interpretado como um ato de má-fé, a recusa em aceitar a liberdade e a responsabilidade de optar pelo bem em detrimento da segurança de uma norma preestabelecida. Eles preferem se esconder atrás da Lei do Sábado a reconhecer a verdade existencial do sofrimento humano e o valor absoluto da vida.
O apego excessivo à letra demonstra a ausência da virtude da Prudência (Phronesis em Aristóteles/Tomás de Aquino), que é a capacidade de discernir o melhor meio para alcançar o fim bom. Eles falham em aplicar a lei com discernimento, transformando-a em um fardo desumano.
A explicação teológica, em consonância com a filosofia, destaca que o episódio de Lucas 14,1-6 revela que Jesus é o Senhor do Sábado e o Princípio Hermenêutico (de interpretação) de toda a Lei Divina.
A Caridade (Amor) é o mandamento novo e o critério fundamental para a ação moral. A cura no sábado estabelece o Princípio da Primazia do Bem Inadiável ao Próximo, uma verdade que a razão reta pode reconhecer e que a Fé aperfeiçoa. A verdadeira santificação do dia de descanso reside na realização da justiça e da misericórdia, e não na observância vazia de rituais.
O texto é, portanto, uma vigorosa defesa da ética material e teleológica que encontra na dignidade da pessoa humana e na virtude da Caridade seu valor supremo, desafiando toda e qualquer forma de legalismo desumano.
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