A Parábola do Fariseu e do Publicano. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 18,9-14

A Parábola do Fariseu e do Publicano, narrada em Lucas 18,9-14, é um dos textos mais pungentes do Evangelho, oferecendo uma lição fundamental sobre a natureza da verdadeira justiça e da oração. Jesus a propõe com o objetivo explícito de confrontar aqueles que "confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros" (Lc 18,9). A interpretação sublinha a primazia da graça e da humildade sobre a autossuficiência moral. No entanto, uma análise filosófica do texto revela um profundo diálogo com diversas correntes de pensamento sobre a ética, o autoconhecimento e a relação com o Outro. Este texto dissertativo explorará a exegese à luz de perspectivas filosóficas, enfatizando o contraste entre a ética da autoafirmação e a ética da alteridade e da kenosis (esvaziamento) necessária à justificação.

Do ponto de vista da teologia, a parábola é uma clara condenação do Pelagianismo e de qualquer ética puramente meritória. O fariseu representa a justiça humana baseada no estrito cumprimento da Lei e das práticas ascéticas (jejuar duas vezes por semana, dar o dízimo de tudo), manifestando uma soberba espiritual que o leva a se autojustificar e desprezar o publicano. Ele não pede nada a Deus; antes, lista seus feitos, colocando-se como credor diante do Criador. O catecismo e a tradição doutrinal enfatizam que a justificação não é obra do esforço humano isolado (opus operatum), mas um dom da graça divina, recebido pela fé e pela humildade (do latim humus, "terra", reconhecendo a finitude e a dependência).

O publicano, por outro lado, um coletor de impostos (considerado traidor e pecador público), encarna o arrependimento sincero e a total dependência da misericórdia de Deus. Sua postura física - de longe, sem ousar levantar os olhos, batendo no peito - e sua oração sucinta ("Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!") revelam o reconhecimento de sua miséria. A conclusão de Jesus — "este voltou para casa justificado, e não o outro" — estabelece a humildade como condição sine qua non para a experiência da graça e da justificação.

O confronto entre Fariseu e Publicano espelha dilemas filosóficos perenes, especialmente no campo da ética e da epistemologia do eu.

A Ética da Soberba e o Estoicismo Mal Interpretado. O fariseu, em sua busca por uma virtude imaculada e autossuficiente, ecoa uma versão distorcida do ideal de Autonomia Moral. Embora filósofos como Immanuel Kant (século XVIII) valorizem a autonomia da vontade e o cumprimento do dever como imperativo categórico, o fariseu transforma o dever em auto-exaltação. Sua virtude é performática e comparativa, carecendo da boa vontade kantiana. Há um traço de Estoicismo no fariseu, que se vê como o sábio que alcançou a ataraxia (imperturbabilidade) moral, mas ele falha no aspecto crucial do estoicismo, que é a aceitação da realidade e da finitude. O fariseu nega a realidade de sua imperfeição, vivendo numa ilusão de autossuficiência moral.

A essência do pecado do fariseu não reside apenas na soberba para com Deus, mas no desprezo pelo Outro ("...nem como este publicano"). Aqui, a parábola encontra ressonância na Filosofia da Alteridade de Emmanuel Levinas (século XX). Levinas argumenta que a ética começa no Rosto do Outro, que interpela o sujeito e o tira de seu egocentrismo. O fariseu, ao julgar e desprezar, nega a humanidade do publicano, recusando-se a ser responsável por ele. Sua oração é um ato de violência moral, pois usa Deus para solidificar sua superioridade em relação ao próximo. A justificação do publicano, ao contrário, implica um rebaixamento do "eu" em favor do reconhecimento da verdade sobre si e da abertura à misericórdia que se estende a todos, inclusive ao que desprezava.

O Autoconhecimento e Existencialismo, (Kierkegaard) no publicano, manifesta uma forma de Autoconhecimento Radical que se alinha a correntes como o Existencialismo. Søren Kierkegaard (século XIX), precursor do existencialismo e pensador profundamente cristão, criticava a religiosidade superficial e focava na angústia e na necessidade de um salto de fé. O publicano experimenta a angústia da sua condição de pecador e realiza um ato de autenticidade (verdade sobre si) ao reconhecer sua culpa e dependência. Sua humildade é, portanto, um ato de coragem e verdade, enquanto a justiça do fariseu é uma fuga inautêntica da realidade. Ele confronta sua própria finitude e pecaminosidade, voltando-se para o infinito da misericórdia.

Lucas 18,9-14 estabelece a humildade como a porta da justificação, rejeitando a religiosidade vazia e orgulhosa. Filosoficamente, a parábola é um rico material para a reflexão ética. Ela desafia a ética da autossuficiência e do individualismo moral (simbolizada pelo fariseu), que isola o indivíduo e o leva ao desprezo do próximo. Em contraste, a justificação do publicano endossa uma ética que reconhece a dependência, a finitude e a necessidade da alteridade - seja a alteridade de Deus (misericórdia) ou a alteridade humana (o próximo que não pode ser julgado). A verdadeira justiça, ensina o Evangelho, não se manifesta na exaltação do "eu" pelos seus méritos, mas no esvaziamento de si (kenosis espiritual) que torna o indivíduo capaz de receber a graça e, consequentemente, de se relacionar de forma justa e compassiva com o mundo. O texto, assim, transcende a moral religiosa e se firma como um imperativo de autenticidade e humildade para todo ser que se questiona sobre o seu lugar no universo moral.

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