A Ética da Vigilância. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 12,54-59

 O Evangelho de Lucas 12,54-59 é uma exortação veemente de Jesus à multidão sobre a necessidade do discernimento e da ação imediata. Ao criticar a hipocrisia de quem sabe "interpretar o aspecto da terra e do céu" para prever o clima, mas falha em "interpretar o tempo presente" (v. 56), Cristo eleva a atenção aos sinais da natureza a um imperativo de ordem moral e existencial. A passagem culmina na analogia do adversário a caminho do magistrado (v. 58-59), que introduz a urgência da reconciliação (kairós da graça) antes do juízo final (eschaton).  Esta perícopa é um profundo tratado sobre a prudência, a justiça e a temporalidade.

A censura de Jesus ("Hipócritas!") recai sobre a desconexão entre a capacidade cognitiva e a vontade ética. O povo demonstra competência na ciência empírica (previsão do clima), mas escolhe a cegueira em relação à realidade da salvação, que é Jesus em seu meio.

 Tomás de Aquino, seguindo Aristóteles, define a prudência (phronesis) como a virtude cardeal que dirige a razão prática para o discernimento do bem e a escolha dos meios corretos para alcançá-lo. Neste Evangelho, Jesus denuncia a falta de prudência espiritual. A multidão usa a razão de forma instrumental (para prever chuva ou calor) mas a negligencia no que é essencial: reconhecer o Messias (o sinal por excelência) e agir para a salvação. O "tempo presente" é o kairós, o tempo oportuno e decisivo de Deus, que exige um juízo prático imediato sobre o que é justo.

A crítica pode ser lida como um desafio à intencionalidade da consciência. Onde a atenção está verdadeiramente dirigida? O povo "intenciona" o fenômeno natural com perspicácia, mas "desintenciona" ou ignora o fenômeno messiânico. Jesus exige um olhar que transcenda o meramente empírico e se dirija à essência da realidade presente – a instauração do Reino de Deus.

A questão "Por que não julgais por vós mesmos o que é justo?" (v. 57) coloca a responsabilidade do discernimento diretamente sobre o indivíduo.

O imperativo de "julgar por vós mesmos" ecoa o princípio da autonomia da vontade em Immanuel Kant. A lei moral não deve vir de fora, mas da razão prática que se impõe à consciência. Jesus convoca a multidão a sair da menoridade e da heteronomia (dependência de sinais externos ou de autoridades) e a exercer a maioridade intelectual e moral para reconhecer e praticar a justiça. O Evangelho é o imperativo categórico que exige ação universal e incondicional no tempo presente.

 O discernimento do "tempo presente" e a urgência do agir justo implicam uma ética da responsabilidade. Não se trata apenas de ser justo em si, mas de responder ao momento histórico e escatológico inaugurado por Cristo. A omissão ou o adiamento da conversão é uma irresponsabilidade grave, pois o kairós é fugaz e as consequências (o juízo final) são definitivas.

A analogia do adversário e do magistrado (v. 58-59) sublinha a dimensão escatológica e temporal da mensagem. O "caminho" é a vida terrena, o "adversário" é a própria consciência ou a Lei de Deus, e o "magistrado" é Deus-Juiz.

 Esta parte do texto sublinha a temporalidade finita da existência. O "caminho" é o tempo de ser-para-a-morte (Sein zum Tode), onde a possibilidade de reconciliação (resolver o caso com o adversário) é limitada e urgente. A inevitabilidade do juízo final (o magistrado) e a prisão (condenação) injetam uma angústia existencial que deve motivar a ação imediata. O perdão e a justiça devem ser buscados agora, no instante da graça, antes que o tempo se esgote.

 Em uma perspectiva mais dinâmica, o trecho enfatiza que o presente é o único tempo de possibilidade e potencialidade. A salvação não se adia. A procrastinação (deixar para amanhã o que é justo hoje) é a forma suprema de hipocrisia e de irracionalidade prática, pois troca a oportunidade concreta da reconciliação por um futuro incerto.

Lucas 12,54-59 é um chamado filosófico à vigilância ativa e à ética da oportunidade. A fé entende o Evangelho como um convite perene ao exercício da prudência espiritual e da autonomia moral para julgar o que é justo. A mensagem de Jesus confronta a inércia, afirmando que a verdadeira sabedoria não está em prever o tempo atmosférico, mas em discernir o tempo de Deus (kairós), agindo com urgência para a reconciliação antes que o tempo da graça se encerre e se inicie o tempo do Juízo.

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