Conversão, Justiça Divina e a Tensão da Condição Humana. Meditação Filosófica/Teológica de Lucas 13,1-9:
O trecho do Evangelho de Lucas 13,1-9 apresenta uma poderosa interpelação de Jesus sobre a relação entre sofrimento, pecado e o imperativo da conversão, culminando na parábola da figueira estéril. A interpretação católica deste texto se fundamenta na Misericórdia Divina e na Liberdade Humana, enquanto a lente filosófica permite-nos desvendar as tensões existenciais e éticas subjacentes, dialogando com diversas correntes de pensamento.
O ponto de partida do Evangelho reside na tragédia: a matança de galileus por Pilatos e a queda da torre de Siloé que vitimou dezoito pessoas. A pergunta subjacente dos contemporâneos, e que Jesus antecipa, é de natureza metafísica e ética: seriam estas vítimas mais pecadoras, merecedoras de um castigo divino?
A resposta de Jesus - "Eu vos digo que não. Mas se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo" (Lc 13,3.5) - é um corte radical na tradição da Teologia da Retribuição simplista. Filosoficamente, essa afirmação ecoa uma crítica que pode ser relacionada ao Existencialismo (particularmente de corte cristão, como em Gabriel Marcel ou, em certa medida, Kierkegaard). A morte não é primariamente um juízo moral sobre a vítima, mas sim uma realidade universal (memento mori), um limite inerente à finitude humana.
A ênfase é desviada do juízo sobre o sofrimento alheio para a responsabilidade pessoal e a urgência da conversão. A "morte" que Jesus adverte não é apenas a física, mas a morte espiritual ou da alma, um conceito que na filosofia pode ser lido como a falência ética ou a perda de autenticidade. O chamado à conversão, nesse contexto, é um apelo à autenticidade existencial e à ação moral (dar frutos), em contraponto à má-fé (Sartre) ou à indiferença moral.
A parábola da figueira estéril (Lc 13,6-9) articula a tensão entre a Justiça e a Misericórdia. O proprietário da vinha, representando Deus Pai, busca o fruto - o resultado da vida humana, lido pela Igreja como a prática da caridade e da justiça, o "fruto digno de penitência" (cf. Mt 3,8). A infertilidade da figueira, que "inutiliza a terra," é uma imagem da vida que não cumpre seu telos (propósito final) ou sua vocação moral.
A intervenção do vinhateiro, que pede mais um ano, simboliza Cristo e a Misericórdia Divina, tema central na Doutrina Social da Igreja e no magistério contemporâneo. A "paciência" de Deus não é vista como uma indiferença, mas como uma extensão da graça, um dom de tempo para a metanoia (mudança de mente e coração).
Em termos filosóficos, a parábola aborda a questão do tempo e da ação. O pedido por mais um ano dialoga com o conceito de Liberdade e a responsabilidade que dela emana. O ser humano (a figueira) não está predestinado à esterilidade; ele tem um prazo, um kairos (tempo oportuno), para exercitar sua liberdade na direção do bem. A ética aqui é teleológica, pois se orienta para o fim (o fruto), mas é perpassada pela ética do cuidado (o adubo e o cavar) e pela Virtude da Paciência.
O texto é perfeitamente compatível com a visão de que a Graça (o cuidado do vinhateiro) aperfeiçoa a Natureza (a figueira). A razão (capacidade de discernimento) é chamada a reconhecer a urgência da conversão, enquanto a vontade livre deve cooperar com a graça para produzir os frutos (virtudes teologais e cardeais). A justiça divina não é meramente punitiva, mas educativa e orientada para a salvação.
Embora a ética de Kant seja baseada no dever e no imperativo categórico (ação por dever, sem visar a recompensa), o texto de Lucas apresenta um imperativo de conversão universal: "ireis morrer todos do mesmo modo." Este imperativo, embora teologicamente fundado, exige uma ação incondicional (conversão), refletindo a necessidade de alinhar a máxima da ação individual com uma lei universalmente válida (a vontade de Deus).
A urgência da conversão ressoa com o chamado existencial para a tomada de decisão face à finitude (a morte iminente). A figueira tem de escolher o fruto ou a inutilidade, confrontada com o "nada" da sua não-existência frutuosa. O "adubo" (graça, Palavra de Deus) é a ferramenta que ajuda o ser a se libertar da sua condição de ser-para-a-morte (Heidegger) e assumir uma existência autêntica.
O Evangelho de Lucas 13,1-9 é um texto fundamentalmente cristão sobre a Misericórdia e a responsabilidade. Ele rejeita a lógica do castigo automático e, em vez disso, estende o convite urgente à conversão. Filosoficamente, a passagem é rica, pois confronta o ser humano com sua finitude, a liberdade de escolha ética e a necessidade de uma existência produtiva (frutífera), reiterando que a paciência de Deus não é um salvo-conduto para a inação, mas a dilação para que a ética do amor possa finalmente florescer.
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